"Outras Estórias" traz a força da palavra de Rosa
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segunda-feira, 10 de maio de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 11 (AE) - É uma tarefa assumidamente ambiciosa: em "Outras Estórias", que estréia na sexta-feira (14), Pedro Bial adapta o cinema a Guimarães Rosa, já que, segundo suas palavras, é impossível adaptar o escritor mineiro para o cinema. "Reduzidas à história, suas narrativas não carecem de força, mas em Guimarães Rosa, como nos grandes artistas, o estilo é tudo." Bial destaca, entre as adaptações do escritor, a que lhe parece a melhor de todas: "A Hora e a Vez de Augusto Matraga". Mas nem no filme famoso de Roberto Santos ele identifica a força da palavra roseana. É o que coloca na tela em "Outras Estórias".
Daí um certo estranhamento que o espectador pode experimentar diante de "Outras Estórias". São cinco histórias adaptadas do livro "Primeiras Histórias", um projeto que começou a tomar forma na cabeça de Bial há mais de 20 anos e que ele conseguiu concretizar, agora, com algumas parcerias importantes. Duas foram fundamentais: as de Cacá Carvalho e Giulia Gam. Além de interpretar episódios do filme, os dois funcionaram como diretores de atores para Bial. O resultado é um filme exigente. Quem quiser facilidade, que fique em casa vendo novela. Ou o Fantástico. Agência Estado - Sua ligação com a literatura é forte. Você apresenta um programa de TV com entrevistas de escritores. E dá a impressão de ter lido de verdade os livros. Pedro Bial - Leio mesmo. Faço questão de ler pelo menos um livro de cada escritor que entrevisto. Quando não dá, você sabe como a vida da gente é corrida, faço uma leitura dinâmica, mas nunca deixo de ler. Não conseguiria fazer as perguntas seguindo o roteiro dos outros. Minha formação é jornalística. Eu quero fazer as perguntas e, para isso, tenho de estar bem informado. AE - Como foi a sua aproximação de Guimarães Rosa? É verdade que há 20 anos você queria filmar "Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha?" Bial - É verdade, sim, desde o tempo da faculdade de jornalismo. Tinha 19 anos quando li "Primeiras Histórias". Já havia lido outros escritores, mas o Guimarães Rosa foi um choque para mim, uma revelação. Fiz um curta de diplomação, queria que o Sorôco fosse o meu segundo filme, mas não deu. O projeto perseguiu-me todo este tempo. Fui para o exterior, vivi o meu exílio e, quando voltei, um amigo, o Raul Soares, estava tentando levantar recursos para fazer o Sorôco. Como o curta é caro e de difícil comercialização, sugeri o documentário sobre o Guimarães Rosa para a GNT e daí partimos para o filme. AE - O que o atrai no sertão de Guimarães Rosa? Bial - Ele escreveu "Grande Sertão: Veredas" no Rio, em Copacabana. Há muito tempo estava exilado de Cordisburgo, onde nasceu. Muita gente diz que não existe sertão em Minas. O sertão de Guimarães Rosa é metafórico. Refere-se à solidão interior do homem, aos seus espaços internos, aos seus infinitos. Eu também sou um homem urbano. Cresci no Rio, olhando para o mar, que era o meu sertão. Durante o meu tempo de correspondente em Londres, sentia-me muito ligado ao Brasil. Pensava muito no País, no que ele tem de sublime e horrível, no sentido da sua miséria moral e humana. Agora que estou aqui, confesso que tenho mais dificuldade para ver o sublime. Mas continuei sempre ligado a essa idéia do sertão metafórico. Retomo isso no filme. AE - Alcione Araújo tem um crédito de adaptação. Como vocês trabalharam? Bial - Na verdade, fui eu que escolhi os contos e, depois, pedi ao Alcione que fizesse a adaptação. Ele fez, mas criou diálogos para o filme. Isso eu não aceitei. Voltei à forma original, ao idioma fundado por Guimarães Rosa. Ouso trazer a palavra roseana para o cinema. É o que me motiva no filme. AE - Como foi feita a articulação das histórias? Bial - Nos casos de O Famigerado e Os Irmãos Dagobé, um entrou pelo outro. Sorôco é fundamental porque terminou dando a linha condutora. A menina louca aparece sempre nos momentos-chave e vira os acontecimentos. Com Nada e a Nossa Condição eu tentei, mas é um conto muito difícil , todo ambíguo. Se fosse parti-lo dificultar ainda mais para o espectador. Separei só uma parte para o prólogo. AE - Há também Substância... Bial - Que é a história de amor do nosso filme. Um filme tem de ter história de amor. Só que, no Guimarães Rosa, ela nunca é só isso. Não por acaso, o conto chama-se Substância. Há de novo uma metáfora aqui, refere-se à transformação humana, à transformação da matéria. Assim como tem história de amor, o filme tem um desfecho de musical, quando volta o Sorôco. Mas é o reverso de um musical tradicional. O filme começa engraçado e termina triste, na solidão total. AE - O sertão no cinema brasileiro é sempre o campo do embate metafísico entre o bem e o mal. Tem uma dimensão mítica. Penso em Gláuber Rocha, em "Sertão das Memórias". Bial - Não sinto "Outras Estórias" como um filme sobre o conflito entre o bem e o mal. Sei que esse tema está no filme, como está no livro, mas os temas para mim são muito mais a vida, a morte, a solidão, a loucura que permeia tudo e dá o sentido final. AE - Foi um filme caro? Bial - Custou R$ 2 milhões e o maior elogio que ouvi foi de alguém do ramo que disse que todo o dinheiro está lá dentro. Não embolsei um centavo do que captei. Ao contrário, investi dinheiro meu, uma grana que tinha para comprar um apartamento. Não comprei o apartamento, mas fiz o filme que quis. AE - Como você trabalhou com a Giulia Gam e o Cacá Carvalho? Bial - Eu sabia o filme que queria fazer, mas nunca tive prática de trabalhar com atores. Não queria, não podia fazer um filme de interpretação naturalista com aquelas falas do Guimarães Rosa. Chamei a Giulia e o Cacá e eles fizeram um trabalho fabuloso. Cacá fez uma coisa baseada no método do Grotowski. Trabalhou em cima das memórias e lembranças dos atores que escolhíamos, tanto os profissionais como os figurantes. Ele trabalhava de forma a fazer com que essas experiências pessoais fossem incorporadas ao filme e devolvidas em forma de interpretação. E também tivemos sorte. Quando eu procurava o cego, um cego de verdade apareceu entre os centenas de candidatos que testamos. Acho que é uma das figuras mais impressionantes do filme. AE - A Globo vai participar do lançamento com alguma mídia? Bial - Não quero misturar as coisas. Poderia ir ao Faustão, usando a minha imagem do Fantástico. O Fantástico tem 40 milhões de telespectadores, digamos que 1% fosse ver o filme. Seriam 400 mil espectadores. Mas sinto que não seria honesto. O Bial do Fantástico é diferente do de Outras Estórias. Se eu tentar puxar os espectadores para o filme pelo lado do Fantástico, acho que estarei desservindo um e outro. O público deve descobrir "Outras Estórias" pela riqueza e complexidade do universo roseano, ao qual eu tentei adaptar o cinema.


