São Paulo, 13 (AE) - Curiosamente, o estreante Pedro Bial resolveu refazer um caminho já trilhado pelo veterano Nelson Pereira dos Santos. Ambos, mas cada qual à sua maneira, adaptaram contos do mesmo livro de João Guimarães Rosa, "Primeiras Estórias". Nelson chamou seu filme de "A Terceira Margem do Rio", que tirou de um dos contos. Bial mudou um pouco o título e adotou o nome de "Outras Estórias", que estéia amanhã (14). Um belo trabalho, diga-se de entrada, que verte para a tela grande os relatos "Famigerado", "Os Irmãos Dagobé", "Nada e a Nossa Condição", "Substância e Sorôco", "sua Mãe, sua Filha". Há um cuidado de produção que valoriza o resultado. Desde a escolha do elenco, passando pela fotografia, música e figurinos. Nota-se uma vontade de acertar, e acertar de primeira.
As histórias, ou estórias, como grafava Rosa, enraízam-se na mais pura mineiridade. Naquele sertão mítico, situado num patamar acima do mero naturalismo, porque já transfigurado pela prosa do escritor. Quer dizer, Rosa não se preocupa tanto em retratar o sertanejo como ele é, mas eleva o sertão à dimensão metafísica. Por isso, em outro livro, pode dizer que o sertão representa o mundo inteiro. Isso para dizer que fica muito difícil captar esse universo de alta concentração simbólica em um filme. Muitos fracassaram tentando. Poucos conseguiram e, entre eles, o destaque, de longe
fica para Roberto Santos com seu "A Hora e a Vez de Augusto Matraga".
As "estórias" falam de quê? De um bandido que procura um homem culto para saber se foi ofendido; de irmãos valentes, que, supõe-se, irão vingar a morte de um deles; do homem generoso, que distribui suas terras e passa por doido; de um caso de amor; de uma história de loucura familiar e solidariedade. Esses "causos" ganham a estatura de saga homérica por força da linguagem do autor. Bial consegue seus melhores momentos quando, por paradoxo, valoriza a imagem em relação à palavra. Por exemplo, a sequência cinematográfica mais pura é aquela de Giulia Gam respirando sensualidade na brancura do polvilho.
Menos interessantes são cenas em que o overacting dos atores produz certa falsidade à narrativa. Essas irregularidades acabam por comprometer a fluência, impedindo que o filme ganhe temperatura emocional. Com uma brilhante exceção, no fim tirado de "Sorôco". Nesse conto, Rosa é alusivo. Não se sabe o que quer dizer inteiramente com essa história do filho que leva mãe e filha ao trem que as conduzirá ao hospício, diante de toda a comunidade. Bial criou tempos cinematográficos precisos, respeitou reticências, foi caloroso apenas até aonde permite o comedimento. Por isso, a última impressão que fica é muito boa. (L.Z.O.)

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