Ousadia para fazer cartaz
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de janeiro de 1999
Zeca Corrêa Leite 
Imagine um cartaz onde, ao alto, aparece um regador como se alimentasse girassóis, colocados na parte inferior do papel, e um texto que repousa sobre eles, sob o título Ouse Fazer. Assim é, em poucas palavras, o primeiro pôster Coleção de Fazer Cartaz, que o publicitário José Oliva está lançando em Curitiba.
Acondicionado numa pequena caixa, o pôster vem acompanhado por um envelope de sementes de girassol, com as explicações sobre como semear e os cuidados básicos com a planta. O melhor, porém, é a receita do autor para o plantio:
- Toda vez que ouvir o coração e ousar, semeie um girassol. Será um sinal de que está conquistando a si mesmo, fazendo tudo em sua volta refletir sua maneira de ser, sentir e sonhar.
Com o surgimento da Coleção de Fazer Cartaz, Oliva passa a trazer ao público, de forma mais ordenada, seus textos que durante anos foram disputados por leitores, e que circularam das mais variadas maneiras. Emergiam aleatoriamente em jornais e rádios, desde o interior de Santa Catarina a Porto Alegre, sem contar o Paraná.
Esta história teve início em 1987, quando o publicitário reuniu suas músicas - é também compositor - e lançou o LP Todas as Pessoas, acompanhado por um encarte. O texto foi batizado de As Pessoas São Músicas e fez sucesso imediato. Prova disso é que foi parar até em convite de formatura do curso de musicoterapia, distribuido em forma de folheto por um museu e editado por alguns jornais.
Apesar do interesse pelo cartaz - houve quem aconselhasse Oliva a vender o encarte e dar de brinde o disco -, ele continuou sendo um complemento. Meses depois o publicitário fez um texto para uma empresa que acabou não sendo utilizado. Seja Você um Menino fala das cores, e de como elas surgiram quando Deus ainda era um menino. No ano seguinte um hotel cinco estrelas optou em mandar aos clientes cartões de boas festas, abandonando o projeto de uma mensagem publicitária.
Em cada um destes episódios, José Oliva adaptou os textos, transformou-os em cartazes, colocou assinatura de sua agência e remeteu-os aos clientes. Como a receptividade sempre fosse das melhores, ao final do terceiro ano passou a produzir os cartazes com um objetivo determinado.
Assim como se desenhou um destino claro para eles, também a necessidade de escrevê-los ganhou outra conotação. José Oliva procurou desprender-se das finalidades morais que o texto pudesse ter. Era como um culto: o escritor tinha que se desfazer de conceituações prévias para deixar que as palavras fluissem. É assim até hoje, quando se dispõe a esse exercício:
- Quero sempre permitir ao texto que venha da maneira que ele quiser nascer. Não é pensar objetivamente: vou escrever algo que diga necessariamente isso. Importa é que possa passar a quem lê um sentimento assim de alma para alma. Todos esses textos nasceram fluindo, como se fosse uma coisa que estivesse no coração da gente. Coisa da alma.
Apesar dos episódios de gatunagem que se repetiam cada vez mais envolvendo seus trabalhos, ainda assim o autor tinha restrições quanto a publicá-los, fora do contexto original. Conselhos é que não faltaram. Eu não aceitava porque achava que eles tinham sido criados para um determinado fim e estavam seguindo suas vidas próprias.
A mãe é quem mais se indignava: Ela era minha maior guardiã. Não sei como ela descobria onde meus cartazes estavam sendo utilizados. A repetição dos fatos trouxe-lhe, finalmente, a visão de que os textos faziam bem a quem os lia. Entendeu então que não poderiam se restringir ao círculo de pessoas para as quais eu distribuia, como mensagem da minha empresa. Mais recentemente avaliou sobre a possibilidade de fazê-los chegar a mais pessoas.
Era uma resposta a si e àqueles que insistiam para que escrevesse um livro. Eu sempre dizia que não sou escritor de livros, estes textos não são para livros, são para serem lidos, para estar em cartaz. Na vista das pessoas. Para elas receberem um toque, uma emoção; de alguma forma se sentirem tocadas pelo conteúdo dos textos, explica.
Essencialmente publicitário, o autor discorre sobre o trabalho e a ciência que envolve sua profissão:
- Acho que esta é uma das coisas mais fascinantes que tem para mim - no texto escrito em cartaz -, da mesma forma como me fascina trabalhar em propaganda. É a noção que você tem de poder, através da comunicação, gerar alguma reação nas pessoas. Sempre achei que estes textos deveriam ser vistos, estar em contato com as pessoas e não impressos em livros. Gostosas são as histórias que ouço desses cartazes, sobre as reações que eles geraram.
Uma delas envolveu centenas de professores, e Oliva foi de roldão. Aconteceu durante um encontro regional de educadores ligados à educação especial. Um de seus textos foi usado como reflexão a cada início de sessão do congresso.
Dessa vez o autor esteve presente: Me chamaram lá porque o texto havia chegado em xerox de um evento promovido em Porto Alegre, e eles queriam saber se, por acaso, eu não era o autor. Foi uma emoção maluca ver um auditório lotado, no Teatro Fernanda Montenegro, usando algo que eu havia escrito sem pensar em educação especial. Enfim, eles interpretaram por esse lado e foi marcante. Foi muito bonito.
Ouse Fazer sai com projeto gráfico de Jonga de Oliveira, diretor de arte baiano, recém-chegado a Curitiba. Neste cartaz tem-se um equilíbrio sereno, sem grandes vôos gráficos, para que prevalecesse o sentido e a leitura do texto, elogia Oliva. A proposta é de que, a cada edição, tenha sempre um novo diretor de arte.
A proposta é de se lançar um cartaz a cada mês. Se tudo ocorrer como José Oliva imagina, o mês de fevereiro será marcado com Pessoas São Músicas. O terceiro da lista: Seja Você um Menino. E assim sucessivamente até dezembro, quando estará completa a Coleção para Fazer Cartaz.
A princípio a série estará sendo comercializada somente em Curitiba, devendo ampliar-se os pontos de vendas à medida que houver espaço. Estou indo devagar, sem inquietação, afirma o publicitário. Nesta primeira tiragem foram produzidas 700 unidades.
Os cartazes são encontrados na rede das Livrarias Ghignone, na Livraria Dario Vellozo (funciona na sede central da Fundação Cultural de Curitiba) e na loja Gepeto, na Praça Garibaldi. Também podem ser encomendados através do telefone (041) 352-6284, da agência Nova Comunicação.
Se por um lado a comercialização depende de entendimentos - como os contatos que vêm sendo mantidos com demais empresas -, por outro existem interessados espontâneos. Foi o que aconteceu com a proprietária da Café e Texto, uma banca de jornais do Centro Cívico. Conhecedora dos trabalhos de Oliva, ela procurou-o para fazer dali um ponto de vendas.


