Sempre considerado um artista à frente de seu tempo, Tom Zé resolveu olhar para trás. Seu trabalho mais recente, o pacote de CD e DVD ao vivo ''Pirulito da Ciência'', é a primeira retrospectiva de uma carreira marcada pela invenção e a ousadia estética. Por isso mesmo, não soa como um produto feito para saudosistas. Pelo contrário. Com novas roupagens, as canções que já eram originalmente instigantes parecem atualíssimas.
E é justamente esse repertório que o baiano de Irará apresenta entre hoje e domingo, em Curitiba, no Teatro da Caixa. São músicas de todos os seus discos, selecionadas com a ajuda do ex-Titã Charles Gavin, produtor e idealizador do projeto. De ''Hein?'' a ''Fliperama'' - passando por ''Menina Jesus'', ''Nave Maria'' e ''O Céu Desabou'' -, o roteiro é um prato cheio para quem ainda não se iniciou na obra do mais radical dos tropicalistas.
''Fiz o DVD porque muita gente me dizia que eu não cabia num CD'', diz o artista, em entrevista para a FOLHA. Tom Zé se refere ao teor performático de seus shows, que ele também chama de ''trabalho de corpo''. ''Minha luta é manter o ouvinte atento. Tem sido assim desde que me descobri incapaz de fazer uma música perfeita, regular. Não consigo me imaginar só cantando durante 50 minutos'', afirma.
Por conta disso, o espetáculo muda a cada cidade visitada. Principalmente no que diz respeito às intervenções entre as canções - que podem ser relatos de experiências anteriores no lugar, observações da paisagem ou até mesmo comentários sobre o noticiário local. ''Além disso, venho me comunicando, pela internet, com muita gente de Curitiba, Londrina e Ponta Grossa, que me conta o que está acontecendo por aí'', revela.
Já que é assim, o que Tom Zé pensa do novo gênero hegemônico do Paraná, o sertanejo universitário? ''Todo mundo gosta de sertanejo, um tipo de música que fala da coisas simples e boas da vida. Agora, para justificar, inventaram esse tal de universitário'', diz. ''Mas não tenho nada contra sertanejo, brega ou popular. Só não faço uma meia dúzia de pagodes porque não sei fazer. Eu tenho é inveja desses compositores'', brinca.
Questionado sobre as leis de incentivo à cultura, assunto que volta à tona em tempos de transição de governos, o artista não se esquiva. ''O fato é que quem tem mais fama, levanta mais dinheiro. É um aproveitamento meio imoral dos recursos públicos'', opina. Ainda assim, ele prefere não se estender no assunto. ''Só falo sobre isso quando me perguntam. Meu negócio é enfrentar a realidade de frente, sem ser queixoso. Porque a queixa não levanta um povo para trabalhar, não faz cócegas na imaginação das pessoas''.
SERVIÇO
- O Pirulito da Ciência
Artista - Tom Zé
Quando - Hoje e amanhã, 21h, e domingo, 19h
Onde - Teatro da Caixa (R. Conselheiro Laurindo, 280), em Curitiba
Quanto - R$ 20 e R$ 10 (meia)

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