Quando está à frente da bancada do CQC, Marcelo Tas se comporta com uma inquietação quase adolescente. Rabisca papéis o tempo inteiro, brinca com os outros apresentadores e, às vezes, chega a atropelá-los para tomar a palavra. Fora dos estúdios, o jornalista de 50 anos conserva o mesmo humor ácido que caracteriza os homens de preto do programa da Band. Mas fala com uma paciência e serenidade que chegam a destoar da mente inquieta que, ao longo dos últimos 27 anos, ocupou uma posição de vanguarda na tevê brasileira. Seja como o abusado repórter Ernesto Varela do ''23 Hora'' em 1983, o categórico Professor Tibúrcio de ''Rá-Tim-Bum'', em 1990, ou o atual ''cabeça'' dos CQCs, Tas se empolga com o trabalho realizado para diferentes gerações de telespectadores. ''Uma das vantagens de ficar velho é ter uma visão em perspectiva do que você já fez. Minha maior alegria é perceber que todos meus trabalhos têm um caráter pedagógico. Até mesmo essa experiência mais espírito de porco que é o CQC'', analisa, aos risos.
Há três anos no comando do programa da Band, Tas se orgulha de ''chacoalhar'' o jornalismo e o humor da tevê brasileira com as pautas irreverentes do CQC. E é enfático ao apontar a falta de ousadia como o principal problema das demais produções atuais. ''A tevê faz uma photoshopização do mundo. Tudo é limpinho, bonitinho, sem nenhuma surpresa. É uma tendência que precisa ser combatida diariamente'', argumenta.
O CQC é quase uma experiência em larga escala do que você fazia como o repórter Ernesto Varela no início dos anos 80. Mas, na verdade, o programa é baseado em um formato argentino criado na década de 90. Como você encara isso?
É uma feliz coincidência. Eu diria que o formato argentino expande o DNA do Varela. O CQC tem uma edição muito mais cuidadosa, é exibido ao vivo em rede nacional e dispõe de uma equipe infinitamente maior. Sem contar que apresentar um programa ao vivo durante quase duas horas é algo inédito para mim. No início, o Varela era feito comigo e o Fernando Meirelles, que era o câmera Valdeci. Depois a proposta foi se ampliando com o resto da equipe da produtora Olhar Eletrônico. Mas não instruo os meninos a seguirem meu exemplo com o Varela. Existe um espaço que cada um cobre do seu jeito.
O povo brasileiro costuma ser caracterizado pelo bom humor. Foi necessário recorrer a um formato estrangeiro para trazer essa irreverência ao jornalismo?
Isso é bastante significativo. O fato de uma emissora comprar formatos é uma maneira de usar algo que deu certo em outro lugar. Mas não é um processo automático. Já tentaram levar o programa para alguns países e não funcionou. Não é como uma franquia de um McDonald's, que é igual em todo lugar. Você está lidando com o imponderável. O poder reage diferente em cada lugar e não tem receita para criar um humor com a nossa cara. Aí que entra o nosso mérito. Eu acredito na ousadia há muito tempo e venho fazendo isso nos meus trabalhos. Fico feliz com o sucesso do CQC no Brasil porque serve como um sinal de que o público aprecia um outro tipo de jornalismo, mais voltado para o humor.
Na época da ditadura, você tinha de lidar com a censura nas matérias de política. Ficou mais fácil agora?
Vou dizer algo muito grave. Na ditadura, eu tinha mais liberdade do que a gente tem hoje no CQC de gravar no Congresso Nacional. É uma vergonha para a democracia brasileira. No Congresso existe atualmente a Polícia do Senado, que agride pessoas e impede o acesso às autoridades. Os políticos, alguns até que lutaram pela democracia, vivem blindados. O Genuíno é um exemplo clássico. Um cara que eu entrevistei muito como o Varela e que não fala com o CQC porque é um programa de humor. E o Varela não era de humor? Ele exerce a censura ou a omissão tanto quanto o General Figueiredo, que também não falava com ninguém, mas não era hipócrita de dizer que era democrático.
Até que ponto a irreverência atrapalha a credibilidade do programa? t
Aqui no Brasil se coloca o humor como uma espécie de defeito de caráter. É um preconceito absurdo. A gente não está habituado a falar abertamente sobre as coisas. Quando você usa o humor, perde o controle daquele discurso quadrado. Essa é a grande virtude de misturar jornalismo e humor. Se você pega exemplos de democracia como Inglaterra e Estados Unidos, as autoridades se expõem. Até a rainha da Inglaterra permite ser criticada, caricaturada. O Obama fala com as pessoas que fazem ironia com relação ao poder. Eles conseguem se comunicar muito bem com isso, coisa que poucos políticos nossos sabem fazer.
Mas ao longo desse tempo questionando autoridades você deve ter esbarrado na censura dentro dos próprios meio de comunicação...
Uma coisa que aprendi é que todo projeto tem um limite e eles devem ser conhecidos e conversados antes de mais nada. Uma das chaves do CQC é que isso foi muito bem tratado com a Band. Aliás, isso é um aspecto muito pouco creditado. Se nós não tivéssemos o apoio editorial da emissora, não existiria o programa. Não consigo imaginar o CQC em outro canal. O programa fala de problemas gravíssimos, colocando em xeque várias instituições. Isso movimenta um nível de poder bastante importante. Lá a gente tem agilidade para resolver esse tipo de pepino.
Você já declarou que a tevê atualmente pode ser assistida sem som e disse ser adepto dessa prática. Como fica o CQC nessa história?
Isso vale para o CQC também. Acho que hoje a gente recebe tanta informação que tem de usar filtros. Um deles é esse. Não quero dizer para as pessoas pararem de ver tevê. Mas não acredito que ficar vendo qualquer coisa a qualquer hora faça bem para a saúde.
Você tem sido inovador na tevê desde a época do Varela. O que o CQC representa nesse histórico?
Acredito que seja uma agulhada na acomodação. Tanto no humor quanto no jornalismo da tevê brasileira. Ele despertou em alguns colegas jornalistas, por exemplo, a vontade de fazer algumas matérias mais atrevidas, de arriscar nos formatos. Ouço isso até de profissionais de outras emissoras. E nos humoristas a mesma coisa. Tenho a alegria de receber o retorno de pessoas que admiro demais. Acredito que a gente dá uma contribuição que não é a revolução final da tevê brasileira, mas que, sem dúvida, é importante.
- CQC - Band, Segunda, 22h15

mockup