Curitiba Não é preciso ir muito longe para encontrar publicações culturais de qualidade. Três revistas editadas no Paraná têm alcançado projeção nacional e tirado a boa literatura do limbo. As revistas não se limitam à divulgação de autores paranaenses, tratam de assuntos e escritores do mundo todo. Duas delas - a Oroboro e a Coyote - são apoiadas por leis de incentivo. Já a ET Cetera é uma publicação independente da Travessa dos Editores. Em comum, as revistas têm a preocupação com a qualidade dos textos e a apuração do projeto gráfico, mas mais ainda a intenção de trazer à tona (bons) autores que não encontram espaço no concorrido mercado editorial.
Quem sai ganhando são os leitores, que têm à disposição farto material crítico, mas curiosamente (ou nem tanto assim), o Paraná não é o maior consumidor do material produzido aqui. Publicação londrinense, a Revista Coyote, por exemplo, tem entre seus maiores leitores o público mineiro, paulista e catarinense. Editada pelos escritores Marcos Losnak, Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes, a Coyote é distribuída pela Editora Iluminuras, de São Paulo, e já está na sua 12 edição. O número 12, aliás, deve estar nas bancas em duas semanas e terá, entre os destaques, poemas inéditos de Nelson Capucho.
A publicação é uma idéia que já martelava a cabeça dos editores há cerca de 20 anos, quando eles driblavam problemas com custos editoriais e demais formalidades para editar fanzines culturais e afins. Nesse meio tempo, cada um deles, que mantêm trabalhos pessoais ligados à literatura, seguiram rumos diferentes, até que decidiram se unir para um projeto ousado: a Revista Coyote, aprovada pelo Promic Programa de Incentivo à Cultura de Londrina. ''Tudo é feito democraticamente e com muito rigor na seleção do material. O que ajuda é que temos referência e sabemos o que está sendo lançando'', conta Rodrigo Garcia Lopes, um dos editores. A busca por novos caminhos da literatura tenta equilibrar todos os gêneros em uma só revista, do conto à poesia, do texto linear ao experimental. ''A gente publica o que gostaria de ver publicado'', enfatiza Lopes. Os 12 números da revista já renderam a publicação de textos de 130 autores. Para esse ano, já estão previstos mais quatro números, mas depois o futuro é incerto, já que a revista depende de patrocínio.
Para evitar a incerteza do apoio financeiro um dos principais obstáculos para quem se aventura a lançar uma publicação cultural o editor Ricardo Corona elaborou um projeto para a Lei de Incentivo Cultural de Curitiba que já previa o início e o término da edição de Oroboro. A revista está na quarta, de oito edições previstas. ''Uma das características das publicações culturais é que elas inevitavelmente nascem e morrem. A gente já previu isso com a Oroboro'', afirma. O título, aliás, é uma referência a uma das figuras mais intrigantes do simbolismo alquímico: a cobra (ou dragão) que morde o próprio rabo e opera, num movimento circular e contínuo, todo o processo dinâmico e transformador da vida, do fim ao término.
A revista nasceu da experiência de Corona com a extinta Medusa, uma revista cultural que encerrou a sua primeira dezena de edições transformando-se em selo editorial. Depois de uma lacuna dedicando-se a projetos próprios e também na elaboração do que se tornaria a Oroboro, Corona concluiu: ''É mais interessante reiniciar um trabalho do que dar manutenção a um outro''. Na quarta edição, a revista editada por Corona e por Eliana Borges, traz encartado um livro-poema do argentino Arturo Carrera. Outros 18 poetas e escritores têm seus textos publicados na nova edição.
Para Corona, garimpar novos e bons autores não é o mais difícil. O maior obstáculo, segundo ele, está na distribuição, o calcanhar de Aquiles dos editores. ''Fazer com que a revista chegue nas mãos do leitor é o nosso maior desafio'', destaca. A Oroboro também é distribuída pela Iluminuras, com pontos em São Paulo e outras capitais.
Outra revista que está alçando vôos cada vez mais altos é a ET Cetera, da Travessa dos Editores. A revista, antes sazonal, acaba de ganhar um novo projeto de edição bimestral. Entre os destaques do número cinco (a contagem começou no zero) está o artigo ''Dylan Thomas: o Bardo Rejeitado'', em que o poeta Augusto de Campos discorre sobre as dificuldades que o autor encontrava para publicar suas obras.
Outros poetas estão na recente edição da revista, como Josely Vianna Baptista que publica seus ''Oito Poemas de Moradas Nômades'', precedidos por um ensaio assinado por Luis Dolhnikoff; Wilson Bueno, em ''Hilda Hilst'', homenageia a autora de ''O Caderno Rosa de Lory Lambi''; Rodrigo Garcia Lopes traduz a poesia de Paul Auster; Rones Dumke apresenta o ''Gosto de Dédalo'', ilustrado por Antonio Cláudio Carvalho; Moacir Amâncio comparece com um poema em hebraico; e o gaúcho Fabrício Carpinejar com um inusitado ''horóscopo poético''.
A revista tem um preço salgado (R$ 35,00), se comparado às outras duas publicações paranaenses (cujo custo está na média de R$ 10,00), mas além de não ter apoio de leis de incentivo, a ET Cetera pode ser comparada a uma edição luxuosa de um livro, e tem quase 200 páginas de literatura.
As publicações paranaenses estão em um busca de leitores, e dependem deles, aliás, para ter continuidade. A qualidade delas, porém, não é unanimidade. Um conhecido crítico literário, que pediu para não ser identificado, diz que não gosta das revistas, mas prefere não fazer comentários em poucas linhas, acha que o assunto mereceria um artigo. Em todo o caso, um mérito não pode ser questionado: elas chegaram às bancas e livrarias com um projeto gráfico e conteúdo que despertam a atenção e concorrem lado a lado com publicações de peso.

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