Ouro Verde refletiu um momento da cidade sem paralelos no país
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Widson Schwartz <br> Especial para a FOLHA
''Cavalheiros'' sem paletó não entravam e o prédio, ''construído especificamente para o seu fim, dotado de ar condicionado perfeito, poltronas estofadas recuáveis, tela de vidro e todas as exigências da técnica moderna, de par com um primoroso acabamento (...) proporcionará, por certo, o máximo de conforto ao distinto público de Londrina''. Assim foi inaugurado o Cine Ouro Verde, em 24 de dezembro de 1952, com a sessão às 20h30, ''avant-première'' de ''Meu Coração Canta (With a Song em My Heart), em benefício da Santa Casa'', conforme anúncio em jornais.
''Sem favor algum, é de se convir, principalmente os que conhecem os cinemas dos grandes centros nacionais, que o Ouro Verde não perde para nenhum em esplendor, conforto e magnificência'', conclusão da FOLHA dois dias antes, classificando-o ''entre os dois melhores da América Latina, o Marrocos, de São Paulo; e o São Luiz, no Rio de Janeiro''. Ficou na memória do primeiro gerente do Ouro Verde, Saulo Corrêa Ribeiro, a admiração de um representante da Paramount presente à inauguração: ''Este cinema deveria estar em Nova York''.
O Cine Ouro Verde, nos primeiros anos 50, refletiu o excepcional momento econômico da cidade, sem paralelos no interior do país. E que correspondia ao ânimo dos sócios da Autolon e sua subsidiária Cinema Ouro Verde S.A., todos eles membros da Sociedade Amigos de Londrina (SAL), sob a presidência de Jordão Santoro e tendo por ''ideário'' São Paulo. ''A cidade nova, sem referencial histórico próprio e com grande potencial econômico, adota o moderno como meta, o moderno como progresso, sendo São Paulo o seu espelho'', conforme a interpretação do arquiteto Fausto Lima sobre a influência da SAL, que determinou a vinda de Prestes Maia (urbanista) e Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi (arquitetos) a Londrina.
Em junho de 1952, o recém-fundado Banco Nacional do Paraná e Santa Catarina (''Nossobanco''), com a matriz em Londrina, havia recebido cinco milhões de cruzeiros em depósitos dos primeiros 500 clientes, quantia equivalente a um quarto do capital social subscrito por 390 acionistas, e sua expansão chegaria a 52 agências, incluindo São Paulo. O célebre saxofonista norte-americano Booker Pittman viera atuar na Boate Colonial, ''ganhando o mesmo dinheiro que receberia em São Paulo'', conforme sua memória em livro. ''Londrina era, exatamente, como no cinema. Só que, em vez do estouro do petróleo ou do ouro, era a corrida do café'', segundo Booker.
''Sentimo-nos (...) felizes e orgulhosos por termos podido levar a cabo este empreendimento e por vermos coroada de êxito a ambição de dotar a nossa terra de um cinema à altura da pujança, do progresso e da cultura de nosso povo'', afirmam os empreendedores no segundo parágrafo do texto sob o título ''Um presente de Natal para o povo de Londrina!'' E se a ''matriz'' era São Paulo, nada melhor do que um anúncio de página inteira em O Estado de S. Paulo de 24 de dezembro de 1952. Há duas ilustrações: Papai Noel entregando o cinema e o cartaz de ''Meu Coração Canta''.
''Seja ele (o cinema), também, a nossa mensagem de fé nos destinos desta privilegiada região paranaense e dos nossos votos de Feliz Natal e próspero ano novo ao povo de Londrina!''