Se há um lugar que melhor representa a cultura londrinense, sem dúvidas, é o Cine Teatro Universitário Ouro Verde. Inaugurado em 24 de dezembro de 1952, ano em que Londrina completava apenas 18 anos, o espaço nasceu como um presente de aniversário e de Natal para a jovem cidade.

O projeto, assinado por João Batista Vilanova Artigas, um dos maiores arquitetos modernistas do Brasil, fez do Ouro Verde o maior cinema do interior do país à época, símbolo de luxo e sofisticação. Localizado no coração do calçadão, rapidamente conquistou os londrinenses e transformou o simples ato de assistir a um filme em um evento de gala.

Em 1978, o espaço foi adquirido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), em parceria com o Governo do Paraná e o Ministério da Educação, passando a se chamar Cine Teatro Universitário Ouro Verde. Desde então, além da programação cinematográfica, abriu as portas para manifestações artísticas diversas: do teatro à dança, da música popular brasileira a concertos da Osuel. Foi também palco dos principais festivais da cidade, como o Filo (Festival Internacional de Londrina), consolidando-se como um símbolo cultural de Londrina.

Apesar da relevância histórica e simbólica, o Cine Teatro Universitário Ouro Verde enfrenta nos últimos anos um processo de fragilização estrutural marcado pela redução de investimentos públicos e pela falta de reposição de servidores. Mesmo sendo um dos espaços culturais mais importantes do interior do Paraná, o teatro convive com limitações operacionais que colocam em risco sua capacidade de manter atividades regulares e preservar o papel central que ocupa na vida cultural de Londrina.

DESAFIOS

Apesar da grandiosidade do espaço, os desafios atuais são preocupantes. Marta Dantas, 57 anos, professora doutora de História e Teorias da Arte e diretora da Casa de Cultura desde agosto de 2022, fala sobre a situação atual do espaço.

“Um ano antes da reinauguração do Cine Teatro Universitário Ouro Verde, a então diretora da Casa de Cultura, profa. Dra. Cleuza Cascione, fez um levantamento do déficit de servidores no teatro e solicitou providências para a retomada de suas atividades, mas as mesmas não saíram do papel e o teatro foi reinaugurado, em 2017, com um quadro de funcionários formado por três técnicos de montagem, duas zeladoras, uma bilheteira e um analista de gestão universitária, João Manoel, que atuava como “gerente”, mas sem ter essa designação. Em 2021 esse quadro se agravou com a aposentadoria de dois dos três técnicos de montagem de eventos, ficando somente o Bene nessa função atualmente. “

Em 2025, a direção do CECA disponibilizou dois servidores e uma técnica administrativa temporária visando socorrer, temporariamente, a equipe do teatro, uma vez que o João Manoel retornou para seu local de origem (a Eduel). Assim, o comando do teatro passou, no início de 2026, para a servidora Ana Paula da Silva, que divide sua jornada de trabalho mensal em 20 horas como responsável pelo teatro e 20 horas na secretaria dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas.

Porém, um problema ainda maior aguarda solução: a futura aposentadoria do único técnico em montagem de eventos, Benedito Luciano da Silva - o Bene. Em 2027, Bene poderá solicitar a aposentadoria e quando esta for efetivada, o cargo de técnico em montagem de eventos, função que exige treinamento e conhecimento específico para trabalhar nas alturas e com aparelhos de alta voltagem, fica a vagar, uma vez que esse perfil profissiográfico deixou de existir no quadro de funcionários do Estado e, portanto, não há a possibilidades de contratação via concurso público. “A ausência do técnico de montagem de eventos inviabiliza o funcionamento do teatro e esse é só um dos desafios que a próxima gestão da UEL vai enfrentar”, completa Dantas.

Ela também destaca a relevância social do espaço: “O Cine Teatro Ouro Verde é o único teatro público da cidade. Em média, 70 a 80% das atividades culturais são realizadas nele. Ele é o coração pulsante da vida cultural da cidade e região.”

Dantas tem uma relação afetiva com o Teatro Ouro Verde, espaço administrado pela Casa de Cultura, órgão suplementar da UEL no qual está como gestora. No final dos anos 1980, ainda como estudante de História da Unesp de Assis, conheceu Londrina por meio do Filo e da Semana de Arte, realizados anualmente pela Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura.

“Antes de me tornar docente da Universidade, tive o privilégio de ver obras de importantes artistas plásticos brasileiros e de assistir a grandes artistas da arte da cena. Escolhi trabalhar na UEL em virtude dessa singularidade: uma universidade que tem órgão – a Casa de Cultura - vinculado aos cursos de artes e que promove manifestações artísticas e fomenta a produção, formação e fruição das artes na comunidade universitária e fora dela, que faz a articulação entre ensino, pesquisa e extensão de forma a democratizar o acesso às artes e o conhecimento acerca delas.”

Carlos Eduardo Lourenço Jorge, que criou a Divisão de Cinema e Vídeo da Universidade Estadual de Londrina e se aposentou em 2023, também avalia que o enfraquecimento da estrutura do teatro é resultado direto da ausência de políticas públicas consistentes para a manutenção do espaço. “Infelizmente, nos últimos anos, o Ouro Verde vem sendo desqualificado pela política pública do Governo Estadual, que conduziu o espaço para uma situação extremamente delicada”, afirma. Para ele, a continuidade do teatro depende de investimento urgente: “É necessário investir no espaço, materialmente e financeiramente, com a adição de funcionários e no corpo operacional.”

IDENTIDADE CULTURAL

João Manoel Martins, 57 anos, que atuou como se fosse um gerente (o cargo já não existe mais) no Ouro Verde desde 2017, deixou o cargo no final de 2025. Sua história com o espaço começa décadas atrás, ainda como espectador do cinema e frequentador do Filo nos anos 1980. João Manuel fala com emoção do espaço que comandou por alguns anos. “Ele é a identidade cultural de Londrina. A cidade tem 90 anos, o Ouro Verde tem 72. A história do Ouro Verde se confunde com a própria história de Londrina. O espaço é um cartão postal da cidade, sendo estudado por estudantes de Arquitetura, Engenharia e artes cênicas do Brasil inteiro.”

Em 2024, o teatro recebeu 127 eventos, com um público de mais de 60 mil pessoas, sem contar as sessões de cinema, que no ano passado teve 33 filmes exibidos e contou com uma audiência de aproximadamente 2.500 espectadores. Os números expressivos contrastam com a incerteza sobre o futuro, diante da escassez de recursos e funcionários para o bom funcionamento do espaço.

A reportagem enviou questionamentos para a Secretaria de Cultura do Paraná , mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

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