Ouro Preto, um banho de história
Ranulfo Pedreiro
Especial para Folha Turimso
É aqui que fica a mina de Chico Rei?
O lugar, uma mistura de casarão colonial com restaurante na senzala, não parece guardar resquícios da exploração do ouro.
É aqui sim, eu vou acender as luzes da mina.
No quintal da casa um buraco se ilumina. Estreita, prolongando-se por cerca de 400 metros para dentro da terra, a Mina de Chico Rei foi fundada em 1702, e explorada até 1730. Com apenas duas galerias abertas à visitação, e um salão alcançado após uma escalada, o lugar só foi descoberto em 1946 pelos moradores atuais.
A lenda diz que Chico Rei foi um príncipe trazido da África como escravo para exploração do ouro em Minas Gerais. Diariamente, ele recolhia o pó de ouro que se acumulava no cabelo e nas unhas dos escravos para trocá-lo por cartas de alforria. Localizada no centro de Ouro Preto, a mina de Chico Rei foi escavada à mão e representa o auge do ciclo do ouro na história colonial brasileira. Por volta de 1762, o ouro já dava sinais de esgotamento, mas sua fama se espalhava cada vez mais, atraindo gente de todos os lugares.
Minas como essa se multiplicam no subsolo de Ouro Preto, e seus restos ainda são visíveis em morros e escarpas. A antiga Vila Rica é patrimônio histórico da humanidade. Com o crescimento irregular, a cidade estendeu suas ruas pelo relevo montanhoso da região central de Minas. Lá, a Inconfidência Mineira foi pensada e desbaratada, culminando com o enforcamento de Tiradentes no Rio de Janeiro. Em qualquer esquina, Ouro Preto é um banho de história.
As ruas estreitas abrigam um trânsito caótico que piora com a chuva. Portanto, a melhor opção é deixar o carro na garagem. O passeio a pé é fundamental para admirar a cidade e seu casario, mas o sobe e desce de ladeiras exige fôlego.
Algumas visitas são fundamentais, como a Praça Tiradentes, onde a cabeça do inconfidente ficou exposta em 1792 e hoje abriga um grande monumento, erguido em 1896. Em um dos extremos da praça ergue-se a antiga Câmara e Cadeia, atual Museu da Inconfidência. Com arquitetura neoclássica, o prédio abriga móveis de época, esculturas, e os restos mortais de vários inconfidentes. O museu expõe ainda as vigas que embasaram a forca de Tiradentes. Na praça também está o Palácio dos Governadores, atual Escola de Minas, que mantém um grande museu de mineralogia. Próximo ao local encontra-se a Casa dos Contos, onde eram feitos contratos e arrecadado o dízimo.
Mais abaixo, fica a Capela da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, um lugar feito para alertar os colonos para a importância de temer a Deus, retratando em suas paredes a dor e o sofrimento de Jesus e alguns santos. A construção da igreja contou com a amplos trabalhos de Aleijadinho os altares e a capela-mor são banhados a ouro.
Entre as igrejas importantes constam a de Nossa Senhora do Carmo um templo carmelita e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, que acumula mais de 300 quilos de ouro em suas paredes e um museu na sacristia. As igrejas se proliferam em Ouro Preto são mais de dez , e o ideal é comprar um guia para admirá-las com certo embasamento.
Ouro Preto oferece uma vida noturna com várias possibilidades. Para quem deseja mergulhar nos bares e restaurantes da cidade, também é aconselhável deixar o carro na garagem e optar por um táxi. De comida francesa a italiana e regional, a culinária mineira dificilmente decepciona. O artesanato é feito principalmente em pedra sabão, e o comércio de pedras preciosas é grande pelas ruas.
Além da arquitetura, Ouro Preto oferece belezas naturais como o Pico do Itacolomy e a cachoeira das Andorinhas. Ambos passeios exigem informações detalhadas ou um guia para evitar surpresas: embora a violência seja rara na cidade, assaltos a turistas têm ocorrido em passeios distantes do centro urbano.





