Ao morrer em 1992, o escritor e jornalista mineiro Otto Lara Resende deixou vários volumes de contos e crônicas, mas um único romance: “O Braço Direito”. Publicado em 1963, a obra se tornou uma obsessão para o autor. Ao longo de décadas ele realizou várias versões diferentes e inacabadas. Em cada versão reescrevia as frases e acrescentava novos elementos. O romance se tornou uma espécie de “livro de uma vida inteira”.

Em 1991, meses antes de falecer, Otto Lara Resende começou a unir o material para definir a versão final de “O Braço Direito”. Para o trabalho contava com o auxílio da escritora Ana Miranda. Antes de o trabalho ser sido concluído, faltando apenas a revisão do último capítulo do livro, Otto morreu em dezembro de 1992.

Otto Lara Rezende: autor mineiro, falecido em 1992, tem parte de sua obra republicada
Otto Lara Rezende: autor mineiro, falecido em 1992, tem parte de sua obra republicada | Foto: Arquivo Otto Lara Rezende/ Divulgação

O romance se tornou, simbolicamente, o “livro de uma vida inteira quase finalizado”. Apontado como obra prima de Otto Lara Resende, “O Braço Direito” está recebendo uma nova edição pelas mãos da editora Companhia das Letras. A editora também está lançando nova edição de “O Lado Humano”, primeiro volume de contos do escritor mineiro publicado originalmente em 1952.

“O Braço Direito” traz um sujeito chamado Laurindo Flores escrevendo sua sofrida história nas páginas de um caderno. Responsável pelo Asilo da Misericórdia, um paupérrimo orfanato católico na imaginária cidade mineira de Lagedo, Flores descreve uma existência imersa numa atmosfera de segredos, culpas, religiosidades, pecados, isolamentos e solidões.

O Asilo da Misericórdia represente toda a herança colonial brasileira. Em nome da caridade e do assistencialismo, padre e coronel disputam o poder sobre os mais pobres. As descrições do narrador, um “pobre coitado no mundo”, revela as disputas de poder com todas as injustiças, as cores da avareza, as sombras das crueldades, o parque de diversão das crueldades, o curral das doenças, o jardim das hipocrisias e os fantasmas do pecado.

Em seu diário, Laurindo Flores traça um panorama dos habitantes do pequeno vilarejo de Lagedo a partir da única referência que possui: a tradição do catolicismo. Também procura entender seu próprio interior a partir da única referência de vida que possui: a biografia dos santos. A tragédia está no fato de que essas referências necessariamente não representam o mundo real dos homens da igreja, nem a vida dos órfãos, nem a existência dos habitantes do lugar.

Em “O Braço Direito”, Otto Lara Resende cria um retrato do povo mineiro após o ciclo colonial da exploração do ouro em Minas Gerais. Uma imagem do sertão que envolve tradições católicas e cultura popular. Uma imagem que não aprecia alterações e precisa ser conservada com unhas e dentes: “Tento me convencer de que está tudo em ordem. Nenhuma explosão à vista. Olho em torno. As galinhas cacarejam e ciscam na horta. No céu alto, evoluem os urubus, como há muitos séculos atrás. Passa na rua o doceiro com seu pregão de doce de batata. Um carro de bois geme com preguiça ladeira acima. Zumbem insetos. Uma baita mosca-varejeira voeja à minha volta e escapa pela janeira. Vem aí uma nuvem de tanajuras. Ninguém vai abalar este recanto do mundo.”

As palavras do narrador são as palavras de um observador. Um angustiado observador que almeja o bem, mas se sente perseguido pelo mal que observa. E por presenciar, e olhar, o mal de perto, é impelido a confundir a alma das duas forças e constatar: “Quem não é filho de Deus é enteado do Demônio”. Uma fase que remete a outra frase muito popular criada por Otto: “O mundo foi criado por Deus, mas quem o administra é o Diabo.”

Nas palavras de Ana Miranda, em “O Braço Direito” o autor cria uma sensação de encarceramento: “Em sua ficção, vemos uma concepção da humanidade como um bando de opressores e oprimidos, que se oprimem mutuamente. Otto usa um orfanato como símbolo do mundo. Todos os humanos somos órfãos. E ele conta que escreveu o romance sem nunca ter entrado num orfanato.”

Otto Lara Resende nasceu na cidade de São João Del-Rei em 1922. Com 18 anos mudou-se para Belo Horizonte onde começou a trabalhar como jornalista e cursar a faculdade de Direito. Em 1945 transfere-se, junto com os amigos mineiros Fernando Sabido e Paulo Mendes Campos, para a cidade do Rio de Janeiro onde passa a trabalhar em jornais e revistas cariocas. Publicou os volumes de contos “Boca do Inferno” (1957), “O Retrato na Gaveta” (1962), “As Pompas do Mundo” (1975), “O Elo Partido e Outras Histórias” (1991) e “A Testemunha Silênciosa” (1995); e os volumes de crônicas “Bom Dia Para Nascer” (1993) e “O Príncipe e o Sabiá”(1994). Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1979.

Serviço:

Imagem ilustrativa da imagem Otto Lara Rezende: o livro de uma vida inteira

“O Braço Direito”

Autor – Otto Lara Resende

Editora – Companhia das Letras

Posfácio – Ana Miranda

Páginas – 296

Quanto – R$ 42,90 R$ 29,90 (e-book)

Imagem ilustrativa da imagem Otto Lara Rezende: o livro de uma vida inteira

“O Lado Humano”

Autor – Otto Lara Resende

Editora – Companhia das Letras

Posfácio – Clara de Andrade Alvim

Páginas – 128

Quanto – R$ 29,90 R$ 19,90 (e-book)

mockup