Ótimos filmes e péssima projeção
Michele Muller
De Curitiba
Especial para a Folha 2
Durante o mês de outubro, enquanto exibia a produção norte-americana Vamos Nessa, o Cine Luz, em Curitiba, conseguiu atrair um número de pessoas que há muito tempo não se via em nenhum dos antigos cinemas da Fundação Cultural. Foram vendidos, em média, 90 ingressos por dia na época o que não é tão difícil de entender, já que o longa-metragem, dirigido por Doug Liman, foi um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, e traz no elenco alguns nomes bastante conhecidos, como Katie Holmes e Sarah Polley.
Mais inesperada foi a popularidade que Corra Lola Corra, do alemão Tom Tykwer, conseguiu alcançar em Curitiba. Totalmente fora dos padrões de filmes comerciais, leva ao Cine Luz, onde está em cartaz há duas semanas, uma média diária de 70 pessoas. Aos sábados e domingos, cerca de 130 assentos são ocupados na sala. O número é pequeno se comparado ao registrado nas catracas dos confortáveis multiplex instalados nos shoppings centers, mas surpreendente para qualquer um que já está acostumado a se ver rodeado de cadeiras vazias cada vez que entra nos cines Ritz, Luz ou Guarani.
É uma pena que, justamente quando uma quantidade maior de gente passa a receber com mais interesse a programação alternativa, os projetores, tão antigos quanto as salas de projeção, começam a mostrar sinais de cansaço. O do Luz, adquirido há 14 anos, tem dado problemas e já provocou, mais de uma vez, a interrupção da sessão.
Em idade de se aposentar, o equipamento faz com que a imagem desapareça da tela ou saia de quadro. Além disso, não raro o projecionista é flagrado fora de sua cabine. Eu já adverti a equipe quanto a isso, e serei mais enfático da próxima vez, diz o diretor da Cinemateca de Curitiba, Paulo Biscaia, responsável pela programação dos cinemas da Fundação Cultural.
Ele avisa que o município não tem dinheiro para comprar novos projetores. A Cinemateca ganhou um, no ano passado, graças a uma parceria com o Ministério da Cultura. Por ser importado, o produto que então custava R$ 100 mil passou a valer praticamente o dobro. É claro que não temos prazer em ver a situação desse jeito. Mas a modernização dos espaços é totalmente inviável, afirma. Uma reforma completa, conta, não sairia por menos de R$ 1 milhão.
Portanto, que ninguém espere, pelo menos tão cedo, conforto e alta qualidade de som e imagem enquanto assiste a uma produção que está fora do circuito comercial. Os cinemas do centro da cidade desapareceram na mesma velocidade em que foram inauguradas as salas em shoppings. Os nossos, apesar das comparações e das exigências que começaram a surgir, resistiram até hoje. Isso se explica porque temos uma programação diferenciada, argumenta Paulo.
Disso ninguém duvida. Outras boas atrações deverão, em poucos dias, entrar no lugar de Corra Lola Corra e do ótimo Felicidade (de Todd Slondz, em exibição no Cine Ritz).A Garota de Seus Sonhos, de Fernando Trueba, e Noites de Cabiria, de Fellini, são dois dos filmes previstos para entrar em cartaz em breve.





