OTIMISMO - Cacá Diegues defende a indústria do cinema
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de março de 2004
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Depois de 42 anos fazendo cinema, tempo em que acompanhou as oscilações entre bons e maus momentos do cinema nacional, o cineasta Cacá Diegues não se arrisca a prever se a boa maré pela qual passa o cinema brasileiro significa apenas ''mais um ciclo da atividade'' ou se é apenas mais ''um novo momento que está começando e que fará com que o cinema se torne uma indústria permamente no Brasil''.
''O futuro é muito promissor, principalmente porque existe uma compreensão entre os cineastas de que precisamos ter uma indústria de cinema. E com a globalização, o que vai fazer a diferença é a cultura de cada país. E aí entra a nossa capacidade de mostrar a diversidade de cultura que temos'', afirmou Cacá Diegues, ontem de manhã, diante de uma platéia composta em sua maioria por jovens, entre estudantes e profissionais de marketing e comunicação, que pagou R$ 100 de ingresso para ouvir o premiado cineasta, que veio a Curitiba falar sobre ''Cinema e Mercado''.
Produtor, roteirista e diretor de vários filmes de curta e longa-metragem, documentários e ficções, para o cinema e para a televisão, premiados no Brasil e no exterior, Cacá Diegues é um dos cineastas mais populares do Brasil e da América Latina, em todo o mundo. Entre seus filmes mais conhecidos, destacam-se ''A Grande Cidade'' (1965), ''Joanna Francesa'' (1972), ''Xica da Silva'' (1976), ''Chuvas de Verão'' (1978), ''Bye Bye Brasil'' (1980), ''Quilombo'' (1984), ''Veja Esta Canção'' (1993), ''Tieta do Agreste'' (1996), ''Orfeu'' (1999). Sua mais recente produção, ''Deus é Brasileiro'' (2003), superou a marca de 1,6 milhão de espectadores, e o roteiro de seu próximo filme, ''O Amor Maior do Mundo'', já está pronto.
O otimismo de Diegues tem diversos motivos: o principal deles é o grande número de filmes ''de qualidade'' que surgiram a partir de 1994, não apenas de antigos diretores mas também de novos cineastas. ''No ano passado foram lançados 37 filmes brasileiros, e este ano outros 190 estão em andamento. Claro que nem todos vão ser finalizados este ano, mas seguramente vamos ter um aumento de pelo menos 50% nos lançamentos nacionais'', diz.
Outros motivos são o crescimento do público que vai ao cinema (de 91 milhões de ingressos vendidos em 1992 para 103 milhões no ano passado) e o crescimento da participação dos filmes nacionais. Em 1994, segundo ele, os filmes brasileiros correspondiam a 0,4% dos ingressos vendidos nos cinemas. Índice este que pulou para 8% em 2002 e para 21,4% no ano passado, revelando um crescimento de 170%.
''Claro que um dos motivos foi também o aumento no poder aquisitivo das pessoas, a partir do plano real. Houve também um aumento no número de salas de exibição'', diz. Apesar do otimismo, o cineasta não poupa críticas. Uma delas refere-se justamente à quantidade de cinemas. ''Há um gargalo no mercado distribuidor. O Brasil é um dos países com a pior relação entre população e número de cinemas, perdendo só para uns três países, entre eles a Málaga'', disse. Hoje o País tem uma sala de exibição para cada 95 mil habitantes, número bem inferior ao México, por exemplo, onde a relação é de um sala para 37 mil habitantes, e incomparável em relação à França, com um sala para cada 10 mil pessoas.
Para o cineasta, chegou a hora do cinema brasileiro parar de viver em ciclos e se firmar como indústria. Ele ressalta a importância das leis de incentivo, como a Lei Rouanet e a Lei dos Audivisuais, que prevêem que as empresas invistam até 5% de seus impostos na área de cultura, mas acredita que a saída está nas mãos dos próprios cineastas, que têm que aprender a ser competitivos.
Ele lembra, no entanto, que as leis têm que ser mais abrangentes, de modo a viabilizar a distribuição dos filmes e incentivar outros formatos como os curta-metragens. Diegues também defende a exploração do merchandising, o que inclui desde a inserção de cenas com o patrocinador nos filmes à venda de produtos alusivos ao filme. ''Mas isto tem que ser usado com cuidado para não correr o risco do filme se transformar em merchandising puro'', adverte.
Como fator positivo ele cita a criação dos Funcines, prevista na lei de 1994, e com funcionamento regulamentado no ano passado. Tratam-se de fundos de investimento, que podem ser operados por qualquer pessoa. O Banco do Brasil deve ser a primeira instituição a lançar seu Funcine, previsto para operar a partir do segundo semestre deste ano.
''O principal inimigo do cinema é a concentração de renda. Um casal vai gastar com ingresso, pipoca, estacionamento, quase um terço do salário mínimo para ir ao cinema e poucos podem fazer isto'', reconhece o diretor. Ainda assim, ele deixa transparecer, de novo, o otimismo com o momento. ''Poucos países têm a possibilidade de ter um cinema tão rico, pela diversidade cultural, e um potencial de mercado como o Brasil tem hoje. Em 42 anos nunca vi um momento tão auspicioso, tão esperançodo como esse. O futuro, agora, depende de nós mesmos'', finaliza.


