Filmes de mistério policial são numerosos e variados, mas no último século e mais um quarto, nenhum deles – nem mesmo "O Silêncio dos Inocentes" (1991), apesar do que o título original sugere – tinha ovelhas como protagonistas.

Neste momento em lançamento simultâneo nos cinco continentes, surge essa peça rara, “As Ovelhas Detetives” (em segunda semana de exibição em várias salas de Londrina), uma combinação de investigação policial e fantasia com animais falantes tentando (com sucesso) remediar essa imperdoável deficiência. E seu principal atrativo reside justamente no choque entre os dois gêneros.

O filme acompanha um rebanho de ovelhas bem versadas no mundo da ficção policial – como elas conseguiram este feito é uma longa e afetiva história que funciona como prólogo. A líder, Rebecca, decide desvendar o enigma do misterioso assassinato de seu tutor, o fazendeiro George (Hugh Jackman) e, na busca da verdade, ela abre os olhos para o mundo.

Com saborosa obviedade, o roteiro evoca clássicos autores da literatura de gênero. Partindo dessa premissa, o diretor Kyle Balda apresenta uma galeria de personagens humanos peculiares, suspeitos de cometer o crime que ele, de início, se contenta em tratar como caricaturas um tanto ridículas na primeira meia hora do filme.

Mas quando as ovelhas assumem o controle da narrativa, no entanto, “The Sheep Detectives” se torna bem mais agradável, deleitando-se com a investigação caótica e salpicando-a com subtramas que adicionam certo peso emocional às suas aventuras.

Embora não alcance o nível geral de criatividade dos dois longas do suíno "Babe" (1995/1998), sua referência mais imediata, esta aventura anglo-estadunidense tece trama razoavelmente engenhosa e inclui várias situações impagáveis, entre as quais se destacam a cena envolvendo uma galinha e uma estrada, e outra, em que uma ovelha tenta explicar Deus para uma colega de rebanho.

E, enquanto isso, a narrativa consegue executar com maestria mudanças arriscadas de tom para oferecer reflexões sobre lealdade, inclusão e a necessidade de aceitar a mortalidade e completar o processo de luto. Não seria razoável pedir mais.

Bem distante do mundo de "Minions", onde se tornou conhecido, Kyle Balda estreia em filmes com bons atores reais neste. Quando toma de fato o comando do filme "The Sheep Detectives" o diretor constrói um mistério sólido, sustentado por uma estrutura clássica: apresentação dos suspeitos, caracterização estereotipada (o policial atrapalhado, o jornalista astuto, a donzela em perigo que se torna a principal suspeita) e uma atmosfera que convida o espectador a se tornar um detetive.

Essa construção meticulosa e funcional evoca diretamente a tradição de Agatha Christie ou, anteriormente, de Arthur Conan Doyle. As ovelhas são de fato um must, Elas partem para investigar os suspeitos humanos, demonstrando que até mesmo um rebanho pode exibir uma lógica brilhante diante de um enigma.

Nesse arcabouço narrativo, as ovelhas – que se comunicam apenas entre si – assumem o papel principal. De uma posição marginal, observam, analisam e reconstroem os eventos com sua própria perspectiva singular, chegando a questionar as ações do policial responsável pelo caso. Sua investigação silenciosa, porém minuciosa, introduz uma camada paralela que enriquece a história.

Agora, a pergunta que não me faz calar: sabem por que o filme tem não poucas vezes uma aparência sem charme, opaca, resultando sem vitalidade? E ele é, em realidade e de fato, muito charmoso, iluminado e bem mais inteligente do que parece ao final de suas quase duas horas. Então, o que houve ? Simples assim: o exibidor continua acreditando, indistintamente, que todas as plateias devem ser condenadas a assistir apenas cópias dubladas. Criancinhas, analfabetos, preguiçosos e que tais.

Em outros tempos, a desculpa que mais pesava, entre outras risíveis, era que legendas eram dispendiosas, que era preciso dar emprego aos dubladores e outros etceteras. Olha, essa é uma questão que há muito saiu do meu foco. De novo, simples assim. Dublar, sob minha ótica, continua pela eternidade afora crime hediondo de lesa cinefilia. É atentado contra a criação artística. Ponto. O “grande público” está pouco se lixando? Dá mais renda ao exibidor ? Tudo bem, eles que se entendam e se deem as mãos, se merecem.

Mas fica pela enésima vez a sugestão para uma convivência minimamente decente: no caso dessas ovelhas e outras exemplares inteligências da fauna que conversam na tela com dignidade, é só disponibilizar uma única cópia original com legendas, e uma única sala com um único horário. É pedir muito?

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