A eterna discussão sobre o que é mais importante entre a forma e o conteúdo parece ter sido exemplarmente finalizada pelo jornalista e escritor Otávio Duarte e pelo artista plástico e artista gráfico Luiz Antônio Guinski. Os dois estarão lançando hoje o livro ‘‘Fanfarra Infante’’, no Solar do Rosário. A obra, criada em computador, foi toda finalizada à mão, como se fosse uma gravura.
O autor, por razões que só o incipiente mercado editorial brasileiro pode explicar, estava há 12 anos sem lançar um livro. O último fora a novela ‘‘Noticiário de Heróis’’. A procupação de Otávio Duarte ao pensar em ‘‘Fanfarra Infante’’ sempre esteve dividida entre forma e conteúdo. ‘‘As duas têm que estar ligadas. Os bons artistas sempre tiveram esta preocupação’’.
O livro traz uma seleção de poemas e prosa feitas por Duarte que coletou versos e frases entre seus escritos e fez outros inéditos, sempre com a preocupação de manter uma unidade.
A parceria com o artista gráfico, que hoje é um designer de livros como nenhum outro em Curitiba, vem de há muitos anos. Foi natural para Duarte escolher Guinski. ‘‘Fanfarra Infante nasceu com a primeira preocupação de ser um livro bonito’’, explica.
Com esta preocupação, os dois passaram a criar eletronicamente a obra com o texto e as ilustrações, mas procuravam uma qualidade única na impressão. Então surgiu a idéia de trabalhar com serigrafia. Recorreram então ao Atelier de Serigrafia do Museu da Gravura, da Fundação Cultural de Curitiba, no Solar do Barão.
Ali fizeram testes e mais testes de cor e impressão. ‘‘O trabalho agradou muito os gravuristas que trabalham no Museu porque eles puderam ter a oportunidade de trabalhar com outro tipo de material e de proposta’’, lembra o escritor.
Nestas experiências decidiram fazer tudo manualmente, inclusive o corte do papel - aliás, um belo papel Rosaspina, de 285 gramas Fabriano. Todo o corte do papel também foi feito manualmente. A impressão ficou a cargo das gravuristas Andréia Las e Rosana Fabri, com acabamento feito por Márcio José Flor.
‘‘Cada página ficou sendo uma tela, um quadro’’, analisa o autor sem esconder o orgulho. Ele tem razão pois qualquer bibliófilo teria orgulho em tê-lo entre suas estantes. E não será fácil tê-lo pois a tiragem, devido ao caráter exclusivo de cada exemplar, será de apenas 55 unidades, devidamente numerados e assinados, como uma verdadeira peça de gravura.
Os autoresUm livro grande, bonito e bem tratado como este, não poderia ser oco. Contém literatura de primeira linha. A poesia de Otávio Duarte é às vezes direta (‘‘Bebo-lhe o álcool das palavras’’), outras enigmáticas (‘‘Era noite quando visitaste/ o meu sonho./ Nele, não percebi que me / sonhavas. Não era eu que / te admirava, mas meu sonho. / Era, então, ainda mais eu / do que eu mesmo./ Só nele eu sou inteiro, pois / acordado é que sonho.’’).
Pode ter ainda preocupações científicas (‘‘E não falamos de quasares, / buracos brancos ou neutrinos.’’ ou ‘‘dois são os tempos do dia / quatro os lados do vento’’) ou históricas, como no poema ‘‘A Poeira do Futuro’’ (‘‘Lindas Nefertites ela cobriu. / Magnos Alexandres, augustos Césares. / Pérfidos Bórgias, divinos Dantes.’’).
Otávio é jornalista formado em Curitiba e trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Correio de Notícias, transferindo-se depois para a TV Paranaense. Morou dez anos fora de Curitiba, trabalhando em São Paulo e Rio de Janeiro, na Rede Globo, Bandeirantes e TV Cultura. De volta a Curitiba, nos últimos anos foi colaborador da Folha e dos jornais O Estado do Paraná e Gazeta do Povo. Em Curitiba também lançou, nos anos 80, a revista de quadrinhos Casa de Tolerância e a revista de criação e literatura ZéBlue.
Luiz Antonio Guinski é publicitário e artista plástico que já fez várias exposições em todo o país, tendo sendo premiado diversas vezes. Nos últimos anos tem se especializado em artes gráficas, principalmente no design de livros, sendo considerado um dos melhores especialistas nesta área.
Como Otávio Duarte afirma, esta edição especial em parceria com Guinski ‘‘dirige-se aos apreciadores da poesia e da criação contemporâneas’’. O selo Edições Rainha Louca pelo qual saiu ‘‘Fanfarra Infante’’ está voltado exclusivamente à edição de obras de criação.Chico CamargoOtávio Duarte com o livro ‘‘Fanfarra Infante’’ em que mistura tecnologia de ponta e trabalho manual a serviço da literaturaO jornalista e escritor Otávio Duarte lança hoje, no Solar do Rosário, um livro que une eletrônica e serigrafia, tecnologia e artesanato

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