Oswald de Andrade: o mais radical dos modernistas
Biografia de Oswald de Andrade escrita por Lira Neto, revela uma das personalidades mais contraditórias da literatura brasileira
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 2025
Biografia de Oswald de Andrade escrita por Lira Neto, revela uma das personalidades mais contraditórias da literatura brasileira
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

Em fevereiro de 1945, Oswald de Andrade estava passando uma temporada no interior de Minas Gerais. Certa manhã, ao entrar no salão do hotel, resolveu folhear os jornais espalhados pelo balcão.
Ao folhear as páginas, é abatido pelo impacto de uma notícia: “De súbito, deixou escapar um grito surdo e desabou no sofá, amarfanhando o jornal no peito. A nova esposa, assustada, quis saber o que havia ocorrido. Oswaldo lhe mostrou a informação que o deixara me choque: dois dias antes, Mário de Andrade morrera em São Paulo, vítima de infarto, aos 51 anos. Tinha sido sepultado na segunda-feira, às cinco da tarde, no Cemitério da Consolação.”
Os dois estavam há anos sem se falar. Amigos inseparáveis e os dois pilares do modernismo brasileiro, viviam entre farpas e sopapos. Muitos imaginavam um rompimento entre parentes, mas os dois não possuíam nenhuma espécie de parentesco, apenas um sobrenome em comum. O rompimento não tinha nada de pessoal, tratava-se apenas de desavenças estéticas.
Completamente inconsolável, Oswald de Andrade percebe algo que negava aceitar e lutava contra há muito tempo: o modernismo que havia criado, ao lado de Mário de Andrade, estava chegando ao fim. Algo proclamado nas esquinas de São Paulo e pelas páginas dos jornais.
MAU SELVAGEM
Esse episódio em que Oswald Andrade recebe a notícia do falecimento de Mário de Andrade marca “Oswald de Andrade – Mau Selvagem”, biografia do escritor modernista escrita por Lira Neto que acaba de ser lançada pela editora Companhia das Letras.
Lira Neto revela Oswald como o mais radical e iconoclasta dos modernistas. E um homem completamente contraditório. Nascido em berço esplêndido, seu pai fez fortuna no mercado imobiliário da cidade de São Paulo. Grande parte do loteamento de áreas nobres saiu de suas mãos.
Oswald foi um autêntico “bon vivant”. Viveu da riqueza e da herança da família praticamente a vida toda. Esteve em várias temporadas na Europa. Conheceu artistas e frequentou os principais círculos artísticos. E apresentou aos escritores e artistas brasileiros todas as vanguardas em ebulição no continente europeu.
Teve uma infância e adolescência atormentada pelo bullying devido ao seu peso. Perdeu a virgindade só depois dos 20 anos de idade. E levou dez anos para terminar a Faculdade de Direito. No dia de sua formatura estava quase completando 30 anos.
Lira Neto aponta que foi o próprio Oswald que organizou a confusão do segundo dia da Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922. Percebendo que tumulto sempre era notícia nos jornais, arregimentou alunos do Faculdade de Direito para vaiar, jogar tomates e batatas nos modernistas. O objetivo era chamar a atenção da opinião pública para o evento.
MAUS BOCADOS
No final da vida, quando o dinheiro chegou ao fim, passou maus bocados se equilibrando entre empréstimos bancários e agiotas. Antes de morrer, vivia em um pequeno apartamento de aluguel, com diabetes nas alturas, quase cego de um olho, atormentado por hemorroidas, falta de ar nos pulmões e dores de todos os lados: “Mal de saúde e de dinheiro, Oswald perdera todos os dentes. Passara a usar dentadura dupla”.
O então jovem jornalista Joel Silveira, descreveu o escritor como um homem destruído, sem lugar do mundo: “Oswald de Andrade já pertenceu à nata elegante de São Paulo. Mas foi expulso da finesse. Hoje sua posição é a de um cidadão amargurado e revoltado com seus antigos colegas de vida mundana.” Doente e sem dinheiro, sentia-se cada vez mais solitário.
O RESGATE
Depois de morrer em 22 de outubro de 1954, a figura de Oswald de Andrade caiu no ostracismo. Seus livros mais ainda. Somente após 20 anos de sua morte, sua obra começou a ser republicada e devidamente estudada. O movimento da Poesia Concreta resgatou Oswald de Andrade. O movimento do Tropicalismo também. O primeiro pelas ousadias formais do escritor. O segundo pelo Manifesto Antropofágico que criou.
Em entrevista, Lira Nero declarou o modernista era um poço de contradições: “Oswald era um homem genial, mas com comportamentos que podem assustar o leitor. Oswald não foi pouco convencional apenas na arte, mas na própria vida. Para os padrões da época, nem se fala. Seu humor, por vezes, atingia um nível de violência inaceitável para quem era alvo. O leitor vai ver Oswald de Andrade com suas contradições sendo postas à luz. Ele vai se apaixonar e se chocar ao mesmo tempo, como foi para mim o processo de escrita dessa biografia.”
Em “Oswald de Andrade – Mau Selvagem” aparece um Oswald sarcástico, lírico, acolhedor, demolidor, apaixonado, adultero, convencional, rebelde, galanteador, machista, amigo, traidor, burguês, comunista, iconoclasta, conservador, revolucionário, libertário, briguento, pacificador e muito mais.
Nascido em Fortaleza, em 1963, Lira Neto é um dos principais biógrafos brasileiros da atualidade. Jornalista de formação, biografou personalidades como Getúlio Vargas, Padre Cícero, Mayza, José de Alencar, Castelo Branco e Rodolfo Teófilo.
Ganhador de quatros prêmios Jabuti, também escreveu “Uma História do Samba”.

SERVIÇO
“Oswald de Andrade – Mau Selvagem”
Autor – Lira Neto
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 528
Quanto – R$ 129,90 (papel) e R$ 49,90 (e-book)


