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Londrina

LEITURA

m de leitura Atualizado em 18/11/2020, 00:29

Osvaldo Diniz, o grande provocador

Biografia “Vou Lá e Faço” resgata a trajetória de uma das grandes personalidades da cultura londrinense das décadas de 1960 e 1970

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Marcos Losnak/ Especial para Folha
AUTOR autor do artigo

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Quando chegou a Londrina em 1964, Osvaldo Diniz (1940 – 1984) provocou grande barulho na cultura de cidade. Teve atuação marcante em várias áreas como televisão, rádio, música, jornal, teatro, artes gráficas e muito mais. Apontado como pioneiro do rock londrinense, foi personalidade determinante na formação cultural da cidade nas décadas de 1960 e 1970.

Um olhar aprofundado sobre sua trajetória pode ser encontrado em “Vou Lá e Faço – A Vida-Obra de Osvaldo Diniz”, biografia escrita pelos jornalistas Felipe Melhado, Gabriel Daher e Teixeira Quintiliano. Lançado pelo Grafatório Edições com patrocínio do Promic, a obra traz informações inéditas e leituras abrangentes sobre o biografado: “Diniz era, além de tudo, um provocador. Alguém que não estava interessado em se alinhar ao establishment ou se abrigar no underground.”

A seguir os autores falam sobre a trajetória de Osvaldo Diniz.

Qual a importância de Oswaldo Diniz para a cultura de Londrina?

Felipe Melhado – O Diniz foi crucial para a formação cultural da geração que viveu a juventude em Londrina durante as décadas de 1960 e 1970. Primeiro porque ele era incrivelmente bem informado para a época, e através do rádio e da TV compartilhava informações que recolhia dos grandes centros. Segundo porque, com 20 anos, tinha um ímpeto realizador admirável, fazendo coisas ousadas que podem ser consideradas de vanguarda, mas com pouquíssimos recursos. Sua fórmula “vou lá e faço” antecipa a ética “do it yourself” que só ganharia sentido como procedimento criativo na década de 1980. Mas acho que o mais importante foi o posicionamento aberrante do Diniz em relação às questões de sua época. Também era um cara ligado nos movimentos da contracultura, de liberação dos costumes, ao mesmo tempo em que era um crítico implacável desses movimentos.

Osvaldo Diniz atuou em televisão, rádio, jornal, teatro, música, artes gráficas e muito mais. Em qual das várias áreas de atuação ele foi mais determinante?

Gabriel Daher – Acredito que sua atuação foi igualmente importante em todas as áreas. No teatro, montou clássicos, teatro engajado, textos contraculturais, comédias de costumes, sempre com o mesmo ímpeto e paixão, independente das eventuais torções de nariz de outras personalidades do meio cultural e falta de recursos e apoio da cidade. Na escrita, imprimia seu próprio estilo como um colunista opinativo que circulava entre dicas culturais, visões pessoais e alfinetadas em figuras ou fatos da cidade que chamavam sua atenção. Nas artes gráficas, era ilustrador e designer, ajudando na transposição para o offset que modernizou a “Folha de Londrina”. Na televisão e no rádio, foi um comunicador moderno e sagaz, e, na música, era também um bom pianista aberto a diferentes sonoridades e movimentos musicais.

Oswaldo Diniz em ensaio do programa Bossa Total, na TV Coroados, em 1965  Oswaldo Diniz em ensaio do programa Bossa Total, na TV Coroados, em 1965 
Oswaldo Diniz em ensaio do programa Bossa Total, na TV Coroados, em 1965  |  Foto: Divulgação

Pode-se afirmar que Diniz foi o responsável pelo nascimento do rock em Londrina na década de 1960?

Teixeira Quintiliano – Na verdade já havia outros radialistas e DJs antes de Diniz, como o Jurandir Panza, Célio Alves de Lima e Oswaldo Cardoso Ribeiro. Todos eles são pioneiros e influenciadores do nascimento do rock na cidade. Se pudermos fazer uma comparação, o Oswaldo Diniz foi o Ed Sullivan da terra roxa. Ele mostrou na TV para a cidade de Londrina e região que havia meninas e meninos interessados na linguagem do rock, principalmente, na tradução que a Jovem Guarda fez do gênero.

O livro relata que Diniz, após o otimismo da década de 1960, foi envolvido pela desesperança na década de 1970. Qual a leitura que vocês realizam desse processo de transposição do otimismo à desesperança?

Felipe Melhado – Essa foi uma das grandes surpresas da pesquisa. Quando a gente ouve falar sobre o Diniz, as pessoas costumam destacar o seu dinamismo, a sua empolgação com os movimentos da juventude dos anos 1960, com a aurora da contracultura, etc. Mas o Diniz que conhecemos através dos textos da “Folha de Londrina” é bem diferente disso. Apesar de olhar com curiosidade para as expressões contraculturais que apareciam com vigor naquele período, muitas vezes essa curiosidade era temperada com um ceticismo de fundo, às vezes até mesmo com um tom impaciente. Parecia que ele tinha pouco saco para aquilo. Enquanto muitas pessoas se deslumbravam com a chegada da contracultura no Brasil, ele parecia estar de bode, desconfiado, desenganado. Na minha interpretação, acho que esse desencanto tinha a ver com a experiência pessoal do Diniz. De certa forma, ele contribuiu para que a contracultura se instalasse aqui, no interior do Brasil, numa cidade provinciana e recém-criada. Mas trabalhando com cultura de massa na TV, no rádio e no jornal, Diniz entendeu que o que parecia ser uma revolução era, na verdade, apenas um produto novo a ser consumido. Algo muito lucrativo para a indústria cultural e que, no fim das contas, tinha poucas chances de realizar qualquer transformação na experiência da vida social das pessoas.

Em “Vou Lá e Faço” é possível perceber que a homossexualidade de Diniz foi um elemento complicado numa Londrina conservadora. Esse elemento interferiu na atuação de Diniz?

Felipe Melhado – É muito provável que sim. Embora ele fosse um homossexual assumido, não sabemos quase nada, por exemplo, dos amores que ele viveu em Londrina. Como muitos homossexuais fazem até mesmo nos dias de hoje, Diniz se viu obrigado a mudar de cidade para poder viver sua sexualidade sem ter de lidar com a encheção de saco dos machistas, as intromissões na vida alheia. Além disso, a saída dele da maioria dos meios de comunicação em que trabalhou carece de explicações convincentes, e alguns entrevistados levantam essa bola, de que a homossexualidade pode ter sido uma causa velada.

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. |  Foto: Divulgação
 

Serviço:

“Vou Lá e Faço – A Vida-Obra de Osvaldo Diniz”

Autores – Felipe Melhado, Gabriel Daher e Teixeira Quintiliano

Editora – Grafatório

Projeto Gráfico – Gustavo André e Maikon Nery

Posfácio – Tony Hara

Páginas – 144

Quanto – R$ 40

Locais de venda a partir de 20 de novembro: Site www.grafatorio.com, Loja Ciranda (Rua Hugo Cabral, 656) e Nosso Sebo (Rua Paraíba, 205)