Oscilações do espírito (Wilmar Klein)
Wilmar KleinOscilações do espírito
Em O Horla (1887), clássico do horror psicológico que figura entre os contos mais conhecidos e estimados de Guy de Maupassant (1850-1893), o protagonista/narrador da história se pergunta: De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo o nosso bem-estar, e a nossa confiança em desespero? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de Potências incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança nós sofremos a influência. Desperto cheio de alegria, com desejos de cantar. Por quê? Desço até a margem do rio; e, súbito, após um curto passeio, regresso desolado, como se alguma desgraça me esperasse em minha casa. - Por quê? - Foi um frêmito de frio que tangenciando minha pele desequilibrou meus nervos e ensombreceu minha alma? Foi a forma das nuvens, ou a cor da atmosfera, a cor das coisas, tão variável, que passando por meus olhos perturbou meu pensamento? Pode-se lá saber? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem palpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos e, por meio destes, em nossas idéias, em nosso próprio coração efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis. (Bola de Sebo e Outros Contos, Rio de Janeiro, Editora Globo, 1987 - traduções de Mário Quintana, Casimiro Fernandes e Justino Martins.) E o protagonista/narrador exclama: Como é profundo esse mistério do invisível!
Parêntese. Tenho um certo receio de fazer citações muito longas, pois sempre dará a impressão de que busco compensar com o excesso da apropriação a falta de ter o que dizer. Porém, no caso em questão, a citação, embora extensa, pareceu-me necessária ao desenvolvimento do tema que tenho em mente. De qualquer modo, fosse um expediente para simplesmente preencher espaço, funcionaria, tanto mais acompanhado de uma justificativa que afetasse pudor em utilizá-lo. Fecha parêntese. Voltemos ao nosso assunto...
Dois anos antes de escrever as linhas que reproduzi no primeiro parágrafo, Maupassant manifestou os primeiros sintomas das neuropatias que, em decorrência da sífilis, o levariam - assim como a seu irmão Hervé - à loucura e à morte. Para aliviar as crises, o escritor recorre à morfina e ao haxixe. Em 1889, essas crises se agravam, sobrevindo as alucinações, porém ainda consegue produzir obras notáveis como Sobre a Água e Forte como a Morte. No ano seguinte, é enviado aos Alpes e à Côte dAzur para tratamento. Sem êxito, pois seguem-se 18 meses de quase total inconsciência, até que, em 1893, é internado por amigos num manicômio em Passy, onde, vítima de paralisia geral, morrerá no dia 6 de julho.
É bem fácil ser tentado a estabelecer uma relação entre o estado de espírito do torturado narrador de O Horla- estado de espírito que evolui até à loucura - e a doença de Maupassant - relação que provavelmente resistiria a uma abordagem clínica bem fundamentada. No entanto, o limite é frouxo - e por vezes indiscernível - entre um excesso de subjetividade e uma psicopatologia, afinal todos nós, em maior ou menor grau, experimentamos oscilações do espírito como as que são descritas no início de O Horla.
Maupassant sentiu-se inclinado a atribuir-lhes uma razão fisiológica (talvez por influência do materialismo alemão do século 19, em especial o de Karl Vogt e Jakob Moleschott): Não é de estranhar que uma simples indisposição, uma perturbação circulatória talvez, a irritação de um filete nervoso, um pouco de congestão, um pequeníssimo desarranjo no funcionamento tão imperfeito e tão delicado da nossa máquina viva, possa fazer um melancólico do mais alegre dos homens, e um covarde do mais bravo?
Tratando, meio século antes, dos mesmos estranhos efeitos, Edgar Allan Poe (1809-1849) buscou para eles, em A Queda da Casa de Usher, uma causa exógena: certas combinações de objetos simples, naturais até a banalidade, que contudo têm o poder de impressiona-nos, mas - e aí chega ao mesmo impasse do autor francês - (...), ao mesmo tempo, este poder permanece misterioso para nós. Um brilho, um rumor, uma brisa, um perfume, ou uma quase imperceptível modificação na correlação habitual entre a figura e fundo, qualquer percepção informe, sem relevo, têm, virtualmente, a capacidade de alterar o nosso estado de espírito. Como Potências incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança nós sofremos a influência.
Ante fatos tão vagos e, por isso mesmo, só parcial e pobremente explicáveis, não há como não ser um pouco supersticioso. Apesar de agnóstico confesso, dizia Aldous Huxley num dos seus ensaios, sinto a presença de demônios numa floresta tropical. Confrontado, quando faz tempo bonito e me vejo em circunstâncias emocionais propícias, com certas obras de arte, com certos seres humanos, sei que, nesse momento, Deus está no céu e que o mundo vai às mil maravilhas. Noutras ocasiões, se os céus e o destino se mostram inclementes, não menos automaticamente tenho certeza da impessoalidade maligna de um universo indiferente.





