Se durante a transmissão você achar que tem muito ator desconhecido circulando fora e dentro do local da cerimônia de entrega do 74º Oscar, não se preocupe com a memória ou com uma súbita invasão de novos rostos em Hollywood. Embora não identifique, você vai ver mesmo (ou não, o que coincide com a intenção da polícia) é um bom número de agentes do FBI metidos em smoking e misturados à multidão que este ano, de resto, não vai ter vida fácil. O acesso ao novo Kodak Theatre, que passa a substituir o Shrine Auditorium, poderá ser missão quase impossível, já que a possibilidade de um atentado é pesadelo recorrente aos organizadores da festa desde o fatídico 11 de setembro. Um verdadeiro exército de agentes federais e de empresas privadas, em colaboração direta com a polícia de Los Angeles, trabalha há semanas em toda a área para que tudo saia como previsto e que astros e estrelas desfilem pela flamejante tapeçaria de acesso sem qualquer risco.
Resolvido ou não este problema – vale o suspense, condizente com as surpresas da noite: seria Osama Bin Laden o indesejado mestre sem cerimônias do espetáculo?. As atenções se concentram no palco, onde durante cerca de três horas e meia, a partir das 22h30 (horário de Brasília), agora de novo sob o comando da âncora Whoopi Goldberg, Hollywood reedita sua festa anual de glamour, beleza, emoção, elegância, cafonice, auto-indulgência e absoluta praticidade em termos de altas finanças. Na velha luta entre arte e dinheiro, deve prevalecer mesmo a efígie dolarizada de insignes personagens. Para a comunidade hollywoodiana, a grande indagação não é sobre quem vai levar o Oscar de melhor ator, se Russel Crowe ou Denzel Washington, os mais cotados; mas se os eleitores da Academia vão mais uma vez vez trair a tradição (como fizeram há dois anos com ‘‘Beleza Americana’’) e eleger como melhor de 2001 um filme de arte, produção independente, barata como ‘‘Entre Quatro Paredes’’ , esnobando produções comerciais rentáveis nas bilheterias, com orçamento de US$ 270 milhões, como ‘‘O Senhor dos Anéis’’ .
Não é nenhum segredo que até praticamente dezembro não haviam se desenhado candidaturas fortes, ao contrário de anos recentes, quando diversos títulos já tinham se insinuado precocemente no decorrer das temporadas. Um dos fatores para este clima de incerteza foi sem dúvida o 11 de setembro, que anestesiou também as estratégias de lançamento. Mas aos poucos algumas pré-candidaturass se tornaram óbvias, misturando qualidades e urgência. O resultado foi uma nominação morna, sem maiores entusiasmos. Na verdade, Hollywood não vai ter grandes motivos para tornar 2001 um ano memorável.
O favorito, já nem tão sem dúvidas assim, é ‘‘Uma Mente Brilhante’’, que segundo as fontes de gossips de Los Angeles, estaria sofrendo uma campanha de descrédito orquestrada pela Miramax, a mais eficiente máquina de convencimento hoje atuando na indústria – não fossem donos os irmãos lobistas Weinstein. Eles são os donos do doloroso e verdadeiro ‘‘Entre Quatro Paredes’’, muito superior ao edulcorado ‘‘A Beautiful Mind’’ mas azarão típico aos olhos do conservadorismo da Academia. ‘‘O Senhor dos Anéis’’, bela e fiel transcrição do universo fabuloso de Tolkien, é quase um recordista de nominações (13), e tem chances consideráveis se prevalecer o fator ‘‘Titanic’’. Mas o fato de ser uma primeira parte de trilogia pode pesar contra. ‘‘Gosford Park’’ é outro azarão de difícil convencimento por causa de sua língua afiada sobre classes sociais, embora os anciãos acadêmicos, por razões óbvias, se rendam sempre a uma reconstituição vitoriana. Finalmente, correndo por fora e até com chances está ‘‘Moulin Rouge’’. A favor, o grande espetáculo que oferece. Contra: é um musical inovador, e o diretor Baz Lurhman não foi indicado.
E entre os diretores as coisas não ficam mais fáceis. Robert Altman é de longe o melhor, por ‘‘Gosford Park’’ e por tudo que ja fez. Mas é um velho leão independente duro de ser engolido pela comunidade de Hollywood que ele costuma cutucar. Vão guardar para ele um desses Oscars honorários, como o que afetivamente entregarão hoje a Sidney Poitier. Ron Howard, de ‘‘Mente Brillhante’’, é nascido e criado em Beverly Hills, segue as normas e lota salas. Portanto...Quem pode incomodar é Peter Jackson, que fez ótimo trabalho com o material de Tolkien, mas sua recompensa deve ser mesmo o premio para roteiro adaptado. Ridley Scott, que ano passado não levou por ‘‘Gladiador’’, fica outra vez na fila por ‘‘Falcão Negro em Perigo’’. E David Lynch fez com ‘‘Mulholland Drive’’ um filme muito indigesto para o apetite comedido dos colegas.
Entre as atrizes, Nicole Kidman e Sissy Spacek despontam favoritas, e o bom ano de Nicole – seu trabalho em ‘‘Os Outros’’ é mais sólido e complexo que a Satine de ‘‘Moulin Rouge’’ – pode dar a ela a primeira estatueta. Entre os atores, Russel Crowe andou overacting também extra-cena, falando bobagens e criando casos em acesso de rebeldia sem causa. Perdeu pontos e pode abrir vantagem para Denzel Washington, que faz misérias como o policial corrupto em ‘‘Dia de Treinamento’’. Pena que Tom Wilkinson não circule no meio ainda com força, e que não tenha um apadrinhamento sólido: é tocante ao extremo seu drama como pai impotente diante da dor e levado à decisão extremada em ‘‘Entre Quatro Paredes’’.
Entre os estrangeiros – o brasileiro ‘‘Abril Despedaçado’’ tentou a nominação mas ficou de fora –, a França tem tudo para levar o Oscar com ‘‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulin’’, embora o sérvio ‘‘Terra de Ninguém’’ deva ser considerado. Pela primeira vez, a Academia reconheceu quantidade e qualidade da animação e criou categoria à parte. Concorrem ‘‘Shrek’’, ‘‘Monstros e Cia’’ e ‘‘Jimmy Neutron’’. Como de hábito, quem assistir pela TV vai acompanhar o habitual sobe-e-desce de gente famosa, apresentando premiados, prestando homenagens e discursando o de sempre com direito às gafes que acabam sendo o tempero da noite. A direção musical da festa este ano fica por conta de John Williams, que concorre pelas trilhas de ‘‘Harry Potter’’ e ‘‘A.I. Inteligência Artificial’’. Ah, e os vestidos e smokings, claro, com tendências da moda, modelos discretos e nem tanto, assinaturas de estilistas famosos, jóias e penduricalhos diversos, penteados e tudo o mais, em nome da maior vitrine de celebridades do planeta.
Serviço
74ª Cerimônia do Oscar. Transmissão pelo SBT a partir de 22h30, e pelo canal por assinatura Telecine Premium (61), a partir das 21 horas.

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