Houve alguma surpresa quando a produção austríaca de ''Os Falsários'' ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Afinal, derrotava o badalado drama de guerra ''Katyn'', de um mestre como o polonês Andrzej Wajda. Vendo-o, compreende-se a opção da Academia. Se ''Katyn'' é um drama sólido, que exuma um controvertido episódio da 2 Guerra Mundial (o assassinato de oficiais poloneses, ora atribuído aos nazistas ora ao Exército russo), ''Os Falsários'' conta com um personagem de primeira, Salomon Sorowitsch. Além de, também, relatar um caso menos conhecido da 2 Guerra.
Salomon (interpretado por Karl Markovicz) é um personagem real. Falsário e bon vivant, é preso e encaminhado para um campo de concentração. Lá, junto com alguns colegas com habilidades semelhantes às suas, é engajado num projeto faraônico de falsificação de libras esterlinas e, depois, de dólares. O objetivo era financiar a Alemanha, já carente de recursos. E, também, pela derrama brutal de notas falsas, desestabilizar as economias dos países inimigos.
O mais interessante do filme é o dilema sentido pelos prisioneiros. Naturalmente que, para realizar esse trabalho, eles dispunham de privilégios inacessíveis a outros prisioneiros do campo. Tinham alojamento confortável, comida melhor e tratamento mais ameno por parte dos SS. Do outro lado da parede, no entanto, outros judeus eram tratados com a brutalidade habitual. A equipe de falsários tinha de ouvir, através dos muros, o sofrimento alheio, gritos e assassinatos. E agir como se nada tivessem com aquilo.
Claro que isso criava uma divisão no interior do grupo. Os que pensavam apenas em sobreviver mostravam-se dispostos a colaborar com os nazistas sem pestanejar. Outros, sentiam-se divididos. E, os mais conscientes, decidiram sabotar o trabalho, mesmo que com o risco da vida. Afinal, fazer o trabalho bem-feito seria favorecer os alemães e levá-los a uma possível guinada na guerra, que já tendia para os Aliados. O interessante é ver como essa cisão do grupo é tratada sem qualquer maniqueísmo pelo diretor Stefan Ruzowitzky, seguindo o roteiro baseado no livro ''The Devil's Workshop'', de Adolf Burger.
Salomon é o filtro através do qual corre a narração. E ele é suficientemente ambíguo para dar a essa narrativa cor e vivacidade. É mostrado nos ambientes de que gosta - luxo, boas bebidas, mulheres bonitas - e, em seguida, na penúria e na humilhação dos campos de prisioneiros. Em ambos, é um personagem que mantém a dignidade, mesmo que sob a forma disfarçada da subserviência. É centrado e autoconsciente. Um bicho vocacionado para a preservação de si, mas nem por isso indiferente aos demais.
É uma bonita história, contada com sentido de concisão e economia de recursos. Filme de época, não cai no academismo dos figurinos. Filme de campo de concentração, evita as redundâncias melodramáticas e concentra-se no que a história tem de original. Vale tanto pelo que mostra pelo que insinua.

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