Oscar: brilhos, remendos e o umbigo do cinema
Enxutas as lágrimas que quase levam em correnteza o novo e belo palco da maior festa do cinema mundial, fica a tarefa sempre fácil de elaborar teorias e encontrar razões para entender porque a Academia preferiu este título àquele, porque houve tantas surpresas, ou ao contrário, porque tudo voltou a acontecer como era previsível. Este foi um ano em que não havia tendências claras: não era o ano dos independentes, nem dos jovens, nem dos grandes estúdios e nem com predomínio de material importado. Na verdade, era o ano de todos ou de ninguém. Era o ano em que Hollywwod celebraria a diversidade, excluído o quesito favoritos mais notórios.
Entretanto, havia pistas para intuir que o Oscar deste ano faria história. Pela ordem: a volta da festa aos domínios da paróquia hollywoodiana; a estréia de nova categoria, melhor longa de animação; uma temporada com três atores negros nominados para as principais categorias e um prêmio especial para Sidney Poitier. Embora desconfiando, muitos preferiram ignorar estes sinais de fumaça justamente porque a Academia sempre foi pródiga em simbolismos que acabam não indicando mudança alguma.
Mas coisas estranhas à habitual mesmice acabaram ocorrendo. Como Woody Allen (vinte nominações, apenas três estatuetas) em cena, de momentâneas pazes feitas com a Academia em nome da doentia paixão por Nova York. Ou o reconhecimento à inteligência e a animação de Shrek, que deveria estar concorrendo a melhor filme como um dos grandes de 2001 - não concorreu em Cannes? Ou os favoritos Russell Crowe e Sissy Spacek olhando o Oscar de longe enquanto a platéia transformava uma encharcada Halle Belly em nova estrela e compensava Denzel Washington pelo esquecimento por Malcolm X e O Furacão. Mas remediar esquecimentos não é novidade para Hollywood. Que o diga o compositor Randy Newman, melhor canção para Monstros e Cia., depois de 15 frustradas tentativas anteriores. Ou o bom-moço Ron Howard, postergado outras vezes mas agora com um Oscar especialmente valioso porque disputado com Robert Altman, Ridley Scott e David Lynch, melhores cineastas que ele. Como se nota, apesar de histórica, a premiação deste ano mostrou hábitos e rotinas que não mudam.
Na hora do balanço, algumas constatações. Nenhuma dúvida quanto à forte ruptura entre os cinemas industrial e independente. Os prêmios dados a Uma Mente Brilhante, O Senhor dos Anéis, Dia de Treinamento e Falcão Negro em Perigo, em detrimento a Assassinato em Gosford Park, Entre Quatro Paredes, Amnésia e O Fabuloso Destino de Amélie Poulin marcaram a clara tendência de Hollywood por produtos mais convencionais ou mais vinculados aos grandes estúdios.
Os derrotados foram justamente os grandes ganhadores do Independent Spirit Award, entregues dias antes do Oscar. Ao premiar Uma Mente Brilhante, a Academia reforçou o clássico e o convencional sobre o inovador e o ousado, como Entre Quatro Paredes e Moulin Rouge. Como se o olhar crítico de Beleza Americana, com justiça premiado há dois anos, não tivesse servido para nada. Com o Oscar, Hollywood acaba sempre olhando para o próprio umbigo e decide que rumo deve ser tomado. Diz claramente: isto é o que eu quero. Pois bem, em alguns anos mais teremos o conflito de uma família negra triunfando no palco do glamouroso Kodak Theater? Alguém aí na platéia se lembra de A Cor Púrpura e suas 11 (onze) nominações, nenhuma delas transformada em estatueta? Com a palavra Woopi Goldberg.





