"Moonlight", dirigido por Barry Jenkins, é uma minuciosa descrição de como a solidão e o desamparo levam alguém a construir artifícios de autoproteção
"Moonlight", dirigido por Barry Jenkins, é uma minuciosa descrição de como a solidão e o desamparo levam alguém a construir artifícios de autoproteção | Foto: Divulgação



Depois da estrepitosa polêmica suscitada em 2015 e 2016 pela ausência de atores negros nas categorias de interpretação, os Oscar se inclinaram este ano diante dos responsáveis por filmes como "Moonlight – Sob a Luz do Luar", "Fences – Um Limite Entre Nós", "Estrelas Além do Tempo" e "Loving", os três primeiros concorrendo a melhor filme (e também ator e atriz principais e coadjuvantes), e o último em busca somente da estatueta de melhor atriz para Ruth Negga. E por trás das câmeras, cineastas negros também estão no páreo da categoria melhor direção. Há ainda a disputa de melhor fotografia e montagem por técnicos negros, feito inédito em Hollywood. Mas ainda é um pouco cedo para afirmar que se trata de uma reconciliação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com o talento negro. A partir dos resultados da cerimônia de 26 próximo - domingo de Carnaval - é que se vai avaliar se pelo menos foi dada a largada para o processo de miscigenação de talentos. A votação ocorre na próxima semana, de 13 a 21.
Principal oponente às pretensões de vitória arrasadora para "La La Land", o drama "Moonlight – Sob a Luz do Luar" caiu do céu para a Academia recompor sua imagem de reduto discriminatório e território de supremacia branca vinte e quatro quadros por segundo. Inspirado na peça autobiográfica "In Moonlight Black Boys Look Blue", este segundo longa metragem do diretor (negro) Barry Jenkins narra a vida de Chiron, menino sem pai biológico, depois adolescente e finalmente um adulto negro, pobre, homossexual e filho de mãe solteira e viciada em crack. Esqueçam a Miami dos shoppings e hotéis cinco estrelas, das praias reluzentes e carros de luxo. E bem vindos à Miami de casas pré-fabricadas, narcotraficantes de segunda e viciados irrecuperáveis. É nessa Miami que cresce e sobrevive num oceano de solidão este personagem, Chiron, uma vida sem saída no horizonte.
Se todas essas características reunidas num protagonista podem à primeira vista parecer golpe baixo difícil de engolir, com acumulação exagerada e manipuladora para obter a compaixão politicamente correta do espectador, é preciso dizer desde logo que Jenkins trabalha a maioria dos conflitos com a elegância e o pudor necessários para evitar qualquer estridência. Bullying, violência contra quem tem postura diferente, contra a mulher, sessão de abusos e situações incômodas: a direção justa de Jenkins penetra neste contexto de forte segregação sempre respeitando e querendo entender seus diferentes personagens.
Filme onde não aparece qualquer personagem branco, nem ao fundo da imagem, desfocado que seja (uma decisão artística e política), "Moonlight" está dividido em três atos, infância, adolescência e primeira fase da vida adulta de Chiron. Mas ao contrário de outros filmes de aprendizagem e rito de passagem através de evolução positiva, neste caso temos um estudo sobre o que sucede a alguém que cresce sem carinho e que somente recebe hostilidade e indiferença – salvo uma exceção, como o improvável mas belo vínculo afetivo que une o garoto Chiron a um traficante de subúrbio (Mahershala Ali, o militar que se casa com a matemática em "Estrelas Além do Tempo"), que funciona como figura paterna.
Assim, "Moonlight" - que pode ser tomado, com as distâncias devidas, como um "Boyhood" afro- americano - é uma minuciosa descrição de como a solidão e o desamparo levam alguém a construir artifícios de autoproteção . E de como essa armadura, esse escudo podem atuar tanto em relação ao mundo exterior como para o interior, bloqueando o desejo e a capacidade comunicação. Talvez para sempre. Um filme tão nobre quanto belo. Sem data para entrar no circuito local, mas já ao alcance de todos.


Este mês, a Folha 2 está publicando matérias especiais sobre os filmes do Oscar 2017, além de sua coluna semanal de cinema.

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