Viola Davis (Rose), decupa sua personagem pouco a pouco até chegar ao quarto final do filme quando simplesmente arrasa
Viola Davis (Rose), decupa sua personagem pouco a pouco até chegar ao quarto final do filme quando simplesmente arrasa | Foto: Reprodução



Denzel Washington, a exemplo dos bem sucedidos Clint Eastwood e Mel Gibson, decidiu há quinze anos lançar-se à carreira de diretor. Seu terceiro longa metragem, "Um Limite Entre Nós", nominado a três Oscar (filme, ator e atriz coadjuvante), não habilitou Denzel a disputar a estatueta na categoria, ao contrário de Clint e Mel, que já levaram para casa seus prêmios, respectivamente por "Os Imperdoáveis" e "Coração Valente". Sem ser um mau diretor, ele ainda não mostrou a que veio quando está atrás da câmera. Com este filme também não decolou para voo mais alto – sua direção é pouco imaginativa – mas sem qualquer dúvida seu maior talento está na habilidade para dirigir atores. Se o filme se sustenta, além de contar com uma história sólida, é muito graças a seus intérpretes, dedicados até a medula a enriquecer permanentemente seus personagens.
"Fences" é a adaptação da obra de teatro homônima escrita por August Wilson (também é dele o roteiro) e uma das mais premiadas na Broadway – nas duas montagens, o personagem principal foi interpretado por James Earl Jones e pelo próprio Denzel Washington. A narrativa está centrada no contraditório Troy, afrodescendente que tenta se impor diante das desigualdades raciais nos anos 1950. Quando jovem, o fato de ser negro anulou uma promissora carreira no futebol, e ele teve que se conformar com um trabalho de lixeiro. O que começa como uma espécie de panfleto pela causa afro-americana vai se convertendo na história íntima e crua de um homem que deve enfrentar a si mesmo e a seus conflitos cotidianos , que inclui a convivência artificial com sua família em crise mal disfarçada: sua mulher Rose, os dois filhos, um irmão com problemas mentais e um caso extra conjugal.
Com uma estrutura atípica no cinema comercial, "Um Limite Entre Nós" logo nos primeiros minutos de sua vasta extensão de 133 mostra uma única (e quase fatal) debilidade: demasiados diálogos herdeiros do teatro. Troy e seu parceiro de trabalho, Bono, ambos com baixo nível cultural, repetem a mais não poder os mesmos relatos e as mesmas frases como uma espécie de mantra, como se fossem a representação da única forma de vida que conhecem e à qual se agarram. As coisas mudam, e para muito melhor, quando Rose/Viola Davis está em cena, primeiro pacificada (aparentemente) diante do machismo de Troy, e na segunda metade quando em confronto direto com o marido. Em essência, o filme acaba pertencendo a seus dois atores: ele, quintessência do macho farto e entendiado, frustrado pelas metas que nunca se cumpriram e que agora busca transferir esta frustração aos filhos; e ela, símbolo da feminilidade silente e sofredora, anônima e secundária por obrigação, remetida à cozinha onde tenta fazer frente à hostilidade ao seu redor.
Viola Davis, magnífica. Constrói seu personagem à medida que avança a narrativa, decupando sua Rose pouco a pouco até chegar ao quarto final do filme, quando desfruta de seu tempo de glória e simplesmente arrasa. É o show muito particular dessa atriz, e ela o conduz com mão de ferro. Assistir Rose ser consciente de seu poder é bem mais que estimulante. A atriz se movimenta com perfeição entre a força e a sobrevivência. Deve ganhar também seu Oscar coadjuvante, depois de já ter garantido seu Globo de Ouro.
Por fim, a cerca do título original , "Fences". A ação se concentra quase inteiramente na casa da família de Troy. A cerca, situada na parte de trás, se converte natural e obviamente na metáfora das barreiras familiares e alheias, reais e imaginárias, de uma sociedade marcada pela recusa à comunidade afro-americana. Trump conhece bem esse e outros tipos de barreira.

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