Foi demais para o homem que, em 30 anos de atividade ininterrupta, 22 longas metragens e muitos sucessos de crítica e público, nunca tinha recebido o prestigioso prêmio de direção. Ainda mais agitado do que de costume, Martin Scorsese não acreditou na estatueta em suas mãos e pediu aos amigos Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas, ao seu lado no palco do Kodak Theater, que confirmassem se era aquilo mesmo.
Logo em seguida, um Jack Nicholson com a cabeça raspada e sem tirar os óculos escuros coroou a madrugada de Scorsese, ao anunciar o último e mais importante prêmio da cerimônia, o Oscar de melhor filme para ''Os Infiltrados''. Com sete nominações, ''Babel'' foi o maior derrotado da noite.
O trio de mexicanos, Alejandro IÀárritu, Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón, terá que esperar melhor ocasião. Ainda não foi desta vez que eles se tornaram os ''infiltrados'' nesta Academia ainda impermeável a uma ampla invasão estrangeira. Alguns Oscar colaterais - maquiagem, fotografia e direção de arte para ''O Labirinto do Fauno'' - foram esperanças prematuras que não chegaram a ameaçar o domínio anglo-saxão. O mesmo vale para o compositor argentino Gustavo Santaolalla, que bisou o Oscar ganho em 2006 pela trilha de ''Brokeback Mountain''.
Quem se saiu muito bem nesta 79 edição do Oscar foi o ex-vice-presidente Al Gore, o guerreiro do aquecimento global. ''Uma Verdade Inconveniente'', no momento em exibição em Londrina, foi o único concorrente da noite que obteve 100% de aproveitamento. O filme concorria em duas categorias, e ganhou nas duas, melhor documentário e melhor canção original, composta e interpretada por Melissa Etheridge. Ele e Leonardo DiCaprio parodiaram o tempo justo que se dá aos ganhadores para os agradecimentos. Gore simulou o anúncio de um suposto lançamento de seu nome como candidato à presidência, mas foi ''cortado'' pela orquestra. Momento divertido, mas sintomático: ele pode estar mesmo querendo voltar à cena política, apesar de sempre afirmar o contrário.
Numa cerimônia de produção impecável, mas insossa, carente de imaginação e consequentemente cansativa, a cargo de uma Ellen de Generes discreta e presa em demasia ao roteiro e sem aquela chispa do improviso hilário de um Billy Cristal, houve alguns raros momentos de brilho e emoção. Como o escrachado número musical a cargo de Jack Black, John C. Reilly e Will Ferrell, sobre as expectativas de quem é nominado. Ou como a tocante homenagem a Ennio Morricone apresentada por Clint Eastwood, agora não mais o ''estranho sem nome'' dos faroestes de Sergio Leone, mas o tradutor dos comovidos agradecimentos do compositor de tantas trilhas inesquecíveis.
Felizmente nenhuma novidade na premiação de melhor ator e atriz. Os óbvios favoritos Forrest Withtaker e Helen Mirren só assinaram o ponto de um Oscar anunciado. Entre os coadjuvantes, Jennifer Hudson também confirmou favoritismo por ''Dreamgirls'', ficando com Alan Arkin de ''Pequena Miss Sunshine'' a única surpresa, ao derrotar Eddie Murphy. Na disputa entre as animações, o pinguim-dançarino de ''Happy Feet'' venceu a corrida o favorito ''Cars''.
E a Alemanha acabou atropelando o México no Oscar de melhor filme de língua não inglesa. O favorito era ''O Labirinto do Fauno'', mas quem levou foi ''As Vidas de Outros''.
Ao final da cerimônia, e diante da premiação, lamenta-se que trabalhos tão bem construídos e inteligentes como ''Babel'' e ''Cartas de Iwo Jima'' não tenham recebido maior reconhecimento. O espírito corporativo falou - e calou - alto e bom som.

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