As novelas do John Le Carré giram em torno de espionagem, corrupção moral e forças do mal trabalhando intensamente ao redor do mundo. As grandes corporações, para ser mais exato. Mas quando transpostas para o cinema, as tramas armadas pelo escritor sempre resultam truncadas, e a rica oferta de nuances se perde no processo.
''O Jardineiro Fiel'', atração de hoje, às 22h, no Telecine Premium, é uma feliz exceção. Contratado para substituir Mike Newell, que preferiu dirigir o quarto filme de Harry Potter, o brasileiro Fernando Meirelles demonstrou que seu pulso em ''Cidade de Deus'' era virtude indiscutível. ''The Constant Gardener'' vai na jugular exposta por Le Carré. A adaptação preciosa do roteirista Jeffrey Caine captura a essência da trama. Não é somente um grande filme. É um dos melhores filmes dos últimos anos.
O projeto era ambicioso, já que se propunha discutir, a partir de fato pontual - quase um drama intimista -, um conflito de grandes proporções e com alcance geopolítico. O filme, como a novela, começa com um difuso incidente criminal que ocorre na África, ao norte do Quênia. A ativista inglesa Tessa Quayle (Rachel Weiss) é brutalmente assassinada, enquanto o médico africano que a acompanhava (Hubert Kounde) desaparece.
O marido dela, o diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes), decide deixar por um tempo as aparências, a burocracia e a jardinagem para investigar o caso por conta própria, mesmo que as autoridades do Alto Comissariado Britânico digam para ele se manter distante.
Quayle, depois de longa jornada por várias partes do mundo, reúne elementos para concluir que, por trás do crime, está uma conspiração orquestrada por poderosa multinacional farmacêutica, que usa mulheres africanas doentes como cobaias em testes de medicamentos ainda em fase experimental.
Vendo a garra, a ferocidade, o humor, a paixão e a ternura com que Rachel Weiss constrói a sua Tessa, ninguém tem qualquer duvida de que ela já esperava o papel, que acabou dando a ela o Oscar de atriz coadjuvante. Ralph Fiennes, por sua vez dotado de um repertório de sutilezas, entrega um soberbo Justin Quayle, personagem que aos poucos se revela anti-imperialista e ''africanista'' sem nenhum esforço panfletário ou carga demagógica.

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