O pavio está aceso e cada vez mais curtando, desde que o filme estreou nos Estados Unidos e na Europa e se fortaleceu por conta de candidaturas a prêmios importantes. ''Paradise Now'', de Hany Abu Assad, recentemente ganhador do Globo de Ouro para melhor filme de língua não inglesa, está no centro de uma polêmica que aumenta a cada dia, na medida em que bolsões israelenses de resistência criticam e pressionam com mais intensidade a Academia de Hollywood.
A mais recente manifestação é de um grupo de familiares de vítimas de atentados palestinos que reuniu cerca de 30 mil assinaturas para exigir que a candidatura do filme fosse retirada. ''Aquilo que eles chamam 'paraíso agora' é para nós um inferno, hoje e cada dia de nossas vidas'', disse recentemente um homem que perdeu o filho de 16 anos em atentado cometido pelo Hamas em um ônibus. ''É uma obrigação do mundo livre não premiar este tipo de filme'', disse o mesmo pai. Esta opinião é obviamente endossada pela maioria da população israelense, onde o filme não foi exibido porque a distribuidora não quis represálias.
''Paradise Now'' não é mesmo prato fácil de engolir por alguém que perdeu o filho em um atentado. O filme narra o processo pelo qual dois jovens da Cisjordânia cometem um atentado suicida em Tel-Aviv. O diretor constrói dois personagens muito matizados, contraditórios. Não são em absoluto fanáticos religiosos. A intenção de Hany Abu Assad é mostrar as razões que há por trás dos atentados. De nada ajudou, para aplacar a ira israelense, o fato de que o filme foi duramente atacado pelos próprios palestinos, mas por motivos contrários: superficialidade do enfoque e ausência de registro da ocupação israelense.
A ira de Israel não pára por aí. Na semana passada, a imprensa israelense disse que lobbies judeus nos Estados Unidos estiveram pressionando os membros da Academia para que não votassem no filme. Além disso, o consulado de Israel em Los Angeles conseguiu arrancar dos organizadores da festa o compromisso de que ''Paradise Now'' não seria apresentado como da Palestina, apesar de que aparece assim no site da Academia. Os grupos de pressão argumentam que a Autoridade Palestina não é um estado, e portanto o filme não pode ser anunciado desta forma.
''Paradise Now'' jamais cita a que grupo armado pertencem os dois homens-bomba, mas sua missão em Tel-Aviv é vingar o assassinato de um de seus heróis. Os israelenses no ''Munique'' de Spielberg também estão engajados na retaliação motivada pelo assassinato dos atletas olímpicos cometido pelos palestinos. Vistos em conjunto, os dois filmes ganham incrível unidade e força na denúncia do interminável ciclo de violência no Oriente Médio.

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