OSCAR 2006 - Mudanças a galope
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de março de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
É o tipo de cerimônia de arejada incorreção política com a qual todos sonham, mas que no fundo ninguém da indústria quer. E não importam as anedotas, trocadilhos e maledicências que o estreante e irreverente mestre de cerimônia Jon Stewart disser, ou o glamouroso desfile fashion promovido no palco pelas estrelas de plantão. Os prêmios de hoje à noite serão sérios, prestigiosos. Históricos e urgentes. Estatuetas criticamente bem recebidas, atribuídas a filmes que, para além de gostos e diferenças de critério, são todos muito interessantes e empenhados, ostentando temáticas comprometidas, controvertidas e posturas políticas fortes.
Os executivos da rede ABC, rede que transmitirá ao vivo a 78 cerimônia do Oscar, e os executivos dos grandes estúdios não estarão muito confortáveis. Provavelmente será a audiência mundial mais discreta dos últimos anos, já que a festa está muito mais para 'low profile', com muitos filmes independentes interpretados por atores menos conhecidos e rendas discretas - todos os candidatos a melhor filme, juntos, faturaram 186 milhões de dólares, a cifra mais baixa desde 1986.
O que parece fora de dúvida é que Hollywood, depois da modesta colheita das bilheterias em 2005, está observando e recompensando com olhos bem mais atentos, e sem dúvida de autocrítica, um certo tipo de produção que não se perfila entre aquelas de grande orçamento. O mais caro dos nominados a melhor filme é o ambicioso thriller político ''Munique'' (U$ 75 milhões), enquanto os demais são produtos independentes de baixíssimo custo para os parâmetros hollywoodianos: ''O Segredo da Montanha'' (14 milhões), ''Capote'' (6,7), ''Crash - No Limite'' (6,5) e ''Boa Noite e Boa Sorte'' (7,5).
Mas não foi somente a modesta cifra orçamentária que colocou estes filmes lado a lado na disputa. Os 5.798 votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood optaram acima de tudo pelos temas audazes, comprometidos, controvertidos, questionadores. Em lugar dos muito rentáveis, acessíveis e luxuosos ''Crônicas de Nárnia'', ''King Kong'', ''Harry Potter'', ''Guerra dos Mundos'' ou ''Batman Begins'', este ano o foco das atenções recaiu sobre títulos de inquestionável seriedade de conteúdo. Em lugar dos ''blockbusters'' de aventuras e efeitos visuais, a clara preferência da comunidade artística foi por assuntos de relevância social e política.
O grande favorito, ''O Segredo da Montanha'', com oito indicações, é este western moderno de Ang Lee sobre dois homens que se amam numa relação que confronta as respectivas famílias e a sociedade. Embora não seja filme de bilheteria massiva, pode ser considerado um êxito também de público (até agora mais de U$ 150 milhões no mercado americano e internacional), contrariando as primeiras expectativas de que teria estréia apenas marginal e de pouca repercussão.
O mesmo se pode dizer de ''Boa Noite e Boa Sorte'', de e com George Clooney, com seis nominações. Um expressivo drama em preto e branco sobre os estragos provocados pelo macartismo nos anos 1950 e a cruzada liberal desempenhada por famoso âncora televisivo para conter os abusos da direita ultra conservadora.
Um olhar desolador sobre o racismo, a incomunicabilidade, as misérias, as diferenças sociais e os abusos do poder está em ''Crash - No Limite'', que Paul Haggis dirigiu entrecruzando a existência de diversos personagens aleatórios unidos a partir de um fato traumático. Embora com seis indicações, é o menos conhecido dos concorrentes, já que foi lançado no Brasil e passou despercebido há cerca de três meses.
''Capote'', com cinco nominações, é o mais independente entre os concorrentes e com uma carta marcada, o ator Philip Seymour Hoffman. Mais que uma cinebiografia do escritor Truman Capote, o relato dirigido por Bennett Miller é sobre a relação entre um jornalista e sua fonte, sobre a ética, sobre o uso e abuso desta situação - e é ainda uma incursão à temática sexual, já que Capote é o gay assumido às voltas com o reacionário ''deep south'' dos Estados Unidos.
E o que dizer do ''Munique'' (cinco nominações), o olhar mais politizado entre os competidores, com seu incômodo enfoque das relações entre Israel e palestinos? Spielberg foi fundo e irritou muita gente (judeus em especial) falando sem maiores pudores das relações sempre conflituosas no Oriente Médio. A relevância da questão é indiscutível: qual o custo pessoal e a eficácia dos assassinatos políticos ?
Fora da disputa pela estatueta de melhor filme, mas ainda circulando nesta faixa do liberalismo hollywoodiano e concorrendo em categorias importantes como roteiro e elenco, aparecem ''O Jardineiro Fiel'', com sua argumentação contra o abuso da indústria farmacêutica na África; ''Syriana'', ataque direto à ação predatória das companhias de petróleo no conflito do Oriente Médio; ''Transamérica'', sobre a questão da transsexualidade; e ''Terra Fria'', sobre o primeiro caso de abuso sexual levado a público nos Estados Unidos.
E os concorrentes ao melhor filme de língua não inglesa também pegam pesado em temáticas contemporâneas que afetam a todos os povos. Entre eles, o incendiário ''Paradise Now'', nestas últimas horas no centro da polêmica não apenas quanto ao assunto (homens-bomba no Oriente Médio) mas quanto à procedência da produção, já que israelenses pressionam para que ele não seja apresentado como ''da Palestina'', mas ''realizado por palestinos.''
Mas há alguns filmes indicados que escapam a esta gravidade de conteúdo. Como ''Johnny e June'', burocrática cinebiografia do cantor country Johnny Cash (cinco nominações). Ou a exuberante sátira de costumes ''Orgulho e Preconceito'', a partir da novela de Jane Austen (quatro). Ou ainda ''Memórias de Uma Gueixa'', também proveniente de best seller, além de ''King Kong'' e ''Nárnia.''
O Oscar, sempre tão criticado, neste 78º aniversário decidiu mudar. Em vez dos bem comportados parabéns com direito a palmadinhas nas costas, esta é a hora dos puxões de orelha, da advertência para quem investe cada vez mais e recupera cada vez menos. Que ninguém se iluda: este comportamento é para que todos se recordem daquela antiga história de que, para permanecer sempre igual, às vezes é necessário mudar. Mas só um pouco.
Serviço:
- A cerimônia de entrega do Oscar terá transmissão para o Brasil, a partir das 23 horas, pelo canal a cabo TNT e a TV Globo.


