Pela primeira vez nos últimos 18 anos, os títulos concorrentes ao Oscar na categoria de melhor filme não foram grandes êxitos de público, o que resultou em bilheterias discretas - quem fez mais até agora foi ''O Aviador'', cerca de 90 milhões de dólares em 11 semanas, mas para um orçamento de U$ 116 milhões. Ao todo, somadas as rendas dos cinco candidatos, o total é de U$ 204 milhões, o mais baixo desde 1988. Este quadro de fraca rentabilidade pode melhorar nos próximos dias com o acréscimo de uma ou mais estatuetas aos currículos dos candidatos, mas nada muito significativo. Por isso, a Rede ABC, dona dos direitos de transmissão da cerimônia de hoje à noite (a partir das 23 horas, horário de Brasília), não esconde preocupação diante de possíveis baixos índices de audiência. No Brasil, o canal a cabo TNT transmite ao vivo a festa que acontece no Teatro Kodak, em Los Angeles, com os comentários do crítico Rubens Ewald Filho. E a Rede Globo, que fechou acordo de última hora, também mostra o Oscar com apresentação de Renato Machado. Logo após a indigência do BBB, nada como um reality show profissional.
Embora a superprodução ''O Aviador'', com 11 candidaturas, apareça como favorita nesta 77 edição do Oscar, já que reúne todos os elementos que Hollywood tanto ama, é bom não perder de vista a força da ascensão de ''Menina de Ouro'', que até final de dezembro nem tinha data de lançamento, e hoje aparece como forte concorrente com suas sete indicações. Como filme, ''Menina de Ouro'' é muito superior, e seu diretor, Clint Eastwood, realizou um trabalho notável. Resta saber se Clint, que já levou estatuetas por ''Os Imperdoáveis'' (filme e direção), repete a dose ou aplaude a vitória de Martin Scorsese, que está em sua quinta corrida em busca do Oscar. Duas razões podem frear as ambições de Scorsese: enquanto ele é apenas admirado, Clint é mais objeto de culto; e os atores, que têm peso considerável na hora do voto, sempre gostam de fazer valer o corporativismo. Nas bolsas de apostas de Las Vegas e Londres a disputa está renhida entre os dois títulos, com mínima vantagem para ''Menina de Ouro''.
O Oscar mais anunciado parece já estar em mãos de Jamie Foxx pelo exuberante trabalho de ''reencarnação'' em ''Ray''. Como atriz, Hilary Swank (''Menina de Ouro'') pode deixar Annette Bening (''Being Julia'', inédito no Brasil) outra vez na fila. As duas já se enfrentaram em 2000, e Hilary levou por ''Meninos Não Choram'', derrotando Annette que estava ótima em ''Beleza Americana''. Justiça seria entregar a estatueta de coadjuvante a Morgan Freeman, em performance que dá brilho ainda maior a ''Menina de Ouro''. Já entre as mulheres, a disputa deverá ficar entre Cate Blanchett, a Katharine Hepburn de ''O Aviador'', e Natalie Portman pelo difícil trabalho em ''Perto Demais''.
''Diários de Motocicleta'', de Walter Salles, concorre aos prêmios de roteiro adaptado e melhor canção original. Mesmo com qualidade que justifique a premiação nos dois casos, será difícil bater o roteiro de ''Sideways - Entre Umas e Outras'' e as outras quatro canções concorrentes (três interpretadas por Beyoncé, inclusive uma francesa). A bela composição ''El Outro lado Del Rio'', único tema em castelhano, seria cantada a princípio pelo próprio compositor, o uruguaio Jorge Drexler. Mas nos últimos dias, misteriosamente, a Academia apagou do mapa o nome de Drexler e escalou a dupla Antonio Banderas/Carlos Santana como intérpretes. Mas Banderas só será sucesso de aparecer em trajes do Gato de Botas - ''Shrek 2'' concorre nas categorias longa de animação e melhor canção original.
Por razões óbvias, ''Farenheit 9/11'' foi varrido do mapa das candidaturas, embora seja o melhor exemplo recente de custo-benefício para os financistas hollywoodianos: U$ 6 milhões aplicados para U$ 120 milhões arrecadados. Provavelmente este não será tema das anedotas que vão estar no script do comediante Chris Rock, o desbocado apresentador deste ano. Provavelmente para incrementar a audiência televisiva duvidosa, semana passada Rock andou dizendo bobagens sobre a festa, entre elas que seria um ''desfile de modas para gays'' e que a cerimônia não tinha nenhum interesse para ''negros heterossexuais''.
A declaração foi espertamente monitorada por marqueteiros da Academia, que usaram a grande imprensa dos Estados Unidos para fertilizar artificialmente a polêmica.
Também pensando no ibope, a organização da cerimônia resolveu inovar este ano e anunciou que alguns prêmios não serão recebidos no palco, mas nas poltronas. A intenção seria agilizar a cerimônia, evitando o sobe-desce ao palco. Também este ano a transmissão será atrasada em cerca de cinco segundos, o suficiente para consertar gafes mais graves - porque as mais leves são até incentivadas para consumo da comunidade de tietes e incremento do mundanismo.
Ainda no terreno da polêmica de ocasião, nas últimas semanas grupos conservadores que agora são regra na sociedade americana encostaram na parede o diretor Clint Eastwood por conta da cena de eutanásia em ''Menina de Ouro'' - a propósito, e neste mesmo território movediço, o espanhol ''Mar Adentro'' deve levar o Oscar de melhor filme em língua não inglesa. Conservador nas origens, Clint soube reciclar-se, e há muito tempo deixou de fazer filmes para o umbigo da águia americana, preferindo o mundo como seu interlocutor. Continua republicano, mas não tem dúvidas em defender tudo o que esta opção política parece atacar continuamente. Assim ele foi visto nos últimos anos condenando a violência em ''Sem Perdão'', a pena de morte em ''Crime Verdadeiro'', os limites do poder em ''Poder Absoluto'', ou fazendo a apologia do adultério em ''As Pontes de Madison'', do travestismo e da homossexualidade em ''À Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal'' e agora da eutanásia. Ah, se todos os republicanos fossem assim...

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