A história do cinema vai registrar que ''O Aviador'' ganhou em número de estatuetas (5). Mas vai contar também que, de fato e de direito, os grandes vencedores na 77 cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foram ''Menina de Ouro'' e seu diretor, o veterano Clint Eastwood, todos protagonistas de um duelo de poucos e bons. O drama que tem o boxe como pano de fundo ainda levou mais duas estatuetas importantes, entre as sete a que estava indicado: melhor atriz para Hilary Swank e melhor ator coadjuvante para Morgan Freeman. Sem exceção, todos prêmios justos e mais que merecidos. Clint, em plena juventude de seus 74 anos, levou a mãe (96) como amuleto.
Foi mesmo um desses combates históricos entre as quatro linhas de um ringue, entre dois contendores pesos pesados - aliás, dois dos derradeiros grandes diretores americanos ainda em ação, dois clássicos no sentido mais rigoroso. ''The Aviator'', a cinebiografia do mitológico Howard Hughes dirigida por Martin Scorsese, começou bem a noite, vencendo os primeiros assaltos e acumulando uma vitória parcial por pontos - atriz coadjuvante para Cate Blanchett, fotografia, vestuário, direção de arte e montagem. Mas ficou nisso. Nos assaltos finais, a reação espetacular de ''Million Dollar Baby'' e o nocaute indiscutível que prolongou a longa dieta de Oscar para um resignado Scorsese, que novamente - agora pela quinta vez - volta para casa sem o prêmio mais cobiçado pelos realizadores.
E estava escrito: o único Oscar assegurado previamente era o de melhor ator, dado sem contestação para um soberano Jamie Foxx pelo papel do músico Ray Charles. A exemplo de Clint, Foxx foi outro que fez a festa em família, com direito à filha na platéia e avó na lembrança. Os outros candidatos ao melhor filme, embora com várias candidaturas, ficaram com um prêmio secundário cada um: trilha sonora para ''Em Busca da Terra do Nunca'' e roteiro adaptado para ''Sideways - Entre Umas e Outras''. Nada a acrescentar, quanto ao restante dos Oscar (veja a lista nesta página).
A surpresa, a esta altura já em plena madrugada brasileira. A mexicana Salma Hayek, em apresentação bem em chave de lobby ufanista, chamou Antonio Banderas e o veteraníssimo Carlos Santana para defender a bela canção ''El Otro Lado del Rio'', tema que o diretor Walter Salles encomendou ao cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler para incluir na trilha sonora de ''Diários de Motocicleta'', composta por Gustavo Santaolalla. Meio indeciso entre o tom intimista e o arroubo flamenco bordado pela guitarra elétrica de Santana, um descabelado e desafinado Banderas fez o que pôde e o pouco que sabia para garantir um mínimo de dignidade a um momento delicado da festa.
Na platéia, um atento e arisco Jorge Drexler, barrado no baile pela direção artística do evento que buscou alternativa equivocada em busca de audiência, aguardava seu momento de glória. Que veio logo em seguida, quando ''El Otro Lado del Rio'', primeiro música latina a concorrer em 77 anos de Oscar, foi declarada vencedora. Neste caso, a doce vingança foi um prato que Drexler saboreou quente ali mesmo no palco do Kodak Theatre, apenas cantando à capela, suavemente, as duas primeiras estrofes da música e dando um tchau para quem fica. Melhor impossível.
Uma lembrança notável, ainda que tardia. O Oscar honorário para o diretor Sidney Lumet, entregue por um sinceramente agradecido Al Pacino, nada mais fez do que reconhecer o que Hollywood ainda tem de melhor, isto, gente que sempre fez bom cinema de mãos limpas, progressista, sem artifícios, somente contando histórias de gente em armadilhas sociais e morais. Não fosse por uma longa lista de grandes títulos em cinquenta anos de carreira, só a menção de ''Doze Homens e Uma Sentença'', ''Serpico'', ''Um Dia de Cão'' e ''Rede de Intrigas'' bastaria para classificá-lo como ''hors concours''.
Houve mudanças no formato da cerimônia. Na estréia como mestre de cerimônias, o desinteressante Chris Rock não disse a que veio, já que sua habitual (e duvidosa) acidez foi previamente censurada pela direção do espetáculo. Depois de abertura mais solta, embora meio esticada e à base de humor família que não é o forte dele (a estocada em Bush foi apreciável ''deslize''), Rock se ateve à rigidez sem graça do texto que lia no teleprompter acoplado à câmera. Entre as improvisações infelizes, as referências a atores mais e atores menos experientes. O troco veio com a irritada intervenção de Sean Pean, que mesmo sem procuração saiu em defesa da classe.
As alterações no anúncio e entrega de algumas categorias. No palco com os candidatos todos juntos, e na platéia com eles sentados: a novidade sem dúvida economizou minutos preciosos. O cronograma esteve mais rígido, e o horário de abertura (22h30) e de encerramento (1h30m), com intervalos menores, deixou a transmissão mais fluída. Ou menos emperrada, como quiserem. Mas ainda é possível enxugar e deixar toda a cerimônia com 2h45m.
Quanto à transmissão televisiva, a TNT (cabo) ficou furos acima da Globo (aberta), que entrou cerca de 40 minutos atrasada e jamais decolou com a dupla Renato Machado-José Wilker. Mesmo com a performance inepta do casal latino que inutilmente tentava as entrevistas no tapete vermelho, a transmissão ancorada por Rubens Ewald Filho na TNT esteve bem melhor.

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