OSCAR 2005 - A vida é um filme
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de fevereiro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Assentada a feérica poeira da fantasia de ''O Senhor dos Anéis'', grande vencedor de 2004, temos como principal entorno deste Oscar que será entregue hoje à noite um panorama bem diferente. Negócio ou coincidência? Ou parcela considerável de incompetência? Nesta 77 edição, os filmes mais votados pelos acadêmicos de Hollywood, em sua maioria, contam histórias ''reais'' de gente que, por esta ou aquela razão, se tornou conhecida do grande público consumidor de ingressos mundo afora.
Mas a aposta comercial parece não ter surtido o efeito esperado, e nenhuma das três cinebiografias candidatas ao melhor filme, por exemplo, arrasou nas bilheterias ''O Aviador'', o melhor recompensado, contabiliza US$ 88 milhões nos EUA depois de quase três meses de exibição. Decepcionante, para o perfil da personalidade doméstica biografada o magnata Howard Hughes, alguém com a cara da América e para o tamanho das ambições da produtora Miramax. Por isso este não é um início de temporada de premiáveis a ser lembrada com saudade pelos exibidores.
''Toda biografia é em última instância uma ficção'', disse certa vez o escritor Bernard Malamud. Reflexão de resto adotada por Hollywood, obviamente adaptada a seu gosto e às suas regras. Conhecidas no universo cinematográfico como ''biopics'' (junção de biographies e pictures, biografias e filmes), as histórias de ascensão, declínio e redenção são fórmula que a indústria e seu público fiel e folhetinesco adoram. E as narrativas, baseadas nas experiências de personalidades e mais ou menos floreadas, têm via de regra inúmeras vantagens. Como a de não ser preciso imaginar um argumento já previamente sabido; ou o fato de que o personagem focalizado é conhecido e, portanto, vantajoso para o filme como objeto de venda, como ícone da cultura popular.
Há ainda as lucrativas portas que se abrem se o biografado for ator, escritor, diretor ou cantor, alvos de reedições, relançamentos, regravações. Não se pode desconsiderar ainda o fato de que a atual vertente das biopics tem também origem no deserto de idéias que há tempos assola a criatividade de Hollywood. Quem escreve para cinema por lá não anda encontrando bons argumentos originais capazes de concorrer que aqueles da vida real, e por isso vem recorrendo à audácia, ao prestígio, à fama já comprovados, à notoriedade enfim de heróis com carteirinha E que acabam por resgatar o espectador do anonimato, em outra curiosa característica deste que afinal se pode chamar de gênero
Além da produção sobre Hughes, com 11 nominações e muito provável vencedora na categoria de melhor filme, as outras biopics na disputa pela principal estatueta são ''Ray'', sobre o cantor e compositor Ray Charles, morto recentemente, e ''Em Busca da Terra do Nunca'', na verdade um roteiro muito mais inspirado do que propriamente baseado na história do escritor escocês J. M. Barrie e de sua criação máxima, o personagem Peter Pan.
Na categoria Oscar de melhor filme de língua não inglesa está ''Mar Adentro'', prova irrefutável de que o cinema pode prescindir de biografados famosos pela vida glamourosa, ou pelo sucesso, ou pelo dinheiro, e optar por retratar alguém capaz de ação transformadora, ainda que polêmica.
Concorrendo em categorias diversas ainda aparecem este ano as biografias ''Hotel Rwanda'' (o gerente de um hotel na África faz as vezes de Schindler e salva muitas vidas), ''Diários de Motocicleta'' (o jovem Che Guevara sob as lentes de Walter Salles), ''A Paixão de Cristo'' (a agonia de Jesus na releitura de Mel Gibson, embora não seja estritamente uma biografia), ''Kinsey'' (sobre o pai da sexologia moderna) e ''Downfall'' (novo olhar sobre os últimos dias de Hitler).
E fora do âmbito do Oscar, mas circulando nos limites do recente Globo de Ouro estiveram ''De-Lovely'', andanças musicais e existenciais de Cole Porter e ''Beyond the Sea'', repescagem do cantor e ator Bobby Darin segundo seu fã incondicional, Kevin Spacey. Não esquecendo, claro mas merecidamente aquém de qualquer prêmio o recente ''Alexandre'' de Oliver Stone, que já levou ao cinema de ficção Nixon e Kennedy, e ao documentário o sempre prosaico Fidel Castro.


