Oscar 2003 - Espanha favorece 'Cidade de Deus'
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de janeiro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Qualquer material especulativo é sempre terreno movediço. Por mais equações que se façam, as populares, perigosas, dilatadas e quase sempre letais margens de erro estão por trás de previsões, predições, adivinhações e outras tantas manobras ''esotéricas'' nas quais a razão entra com discreta participação diante do maior volume de emoção leia-se torcida. Oficialmente aberta a temporada de caça ao Oscar 2003, o mais badalado prêmio atribuído pela industria cinematográfica, o momento é exatamente de exercitar este deliciosamente pretensioso artifício de armar e decompor quebra-cabeças possíveis e improváveis, a partir de dados que começam a chegar à central de processamento do lobby afetivo pelo representante tupiniquim.
A Academia de Cinema da Espanha trouxe a primeira e grande surpresa. O mais recente filme de Pedro Almodóvar, ''Fale com Ela'', apesar da histórica repercussão crítica favorável em todos os países onde tem sido exibido, foi preterido na indicação oficial do candidato espanhol para concorrer a uma das cinco nominações ao Oscar na categoria de filme estrangeiro. O escolhido foi ''Los Lunes al Sol'', do jovem e talentoso Fernando León de Aranoa, vencedor do ultimo Festival de San Sebastian. O impacto do anúncio foi fulminante.
Fora do páreo na disputa pela estatueta de melhor filme estrangeiro, Almodóvar encontrou imediato respaldo de sua distribuidora nos Estados Unidos, a Sony Pictures Classic, que passou a lutar em todas as frentes para aumentar o poder de fogo de ''Hable com Ella''. A campanha da Sony está neste momento sendo encampada pela quase unanimidade da influente crítica americana 93 por cento das críticas impressas ou veiculadas em websites nos EUA foram muito favoráveis ao filme , que começou a pedir expressamente o voto dos acadêmicos para que o filme concorra em algumas das categorias principais: melhor filme, direção, ator (Javier Câmara) e atriz secundária (Geraldine Chaplin). Situação semelhante ocorreu em 1985. ''Ran'', o clássico de Akira Kurosawa, não foi oficialmente selecionado pelo Japão para o Oscar de filme estrangeiro, e acabou com quatro nominações em outras categorias acabou levando a estatueta de melhor vestuário.
E então, como ficamos com o nosso excelente ''Cidade de Deus''? Antes do Oscar, que será entregue no dia 23 de março no Teatro Kodak, o filme brasileiro enfrenta concorrência duríssima no dia 19 de janeiro, quando a Associação da Imprensa Estrangeira acreditada em Hollwyood vai entregar os menos famosos mas já decisivos Globos de Ouro aos melhores de 2002. Aqui não valeu a decisão da Academia espanhola, e ''Fale com Ela'' não só concorre como é o favorito disparado para ficar com o prêmio. Ainda na disputa, além de ''Cidade de Deus'', o alemão ''Em Nenhuma Parte da África'', ''Herói'' (China), ''O Crime do Padre Amaro''( México) e ''Balzac e a Costureirinha Chinesa'' (França).
Se de fato prevalecer a tendência que vem se firmando nos últimos anos, quando praticamente todos os nominados ao Globo de Ouro repetiram suas candidaturas na seleção do Oscar, o filme de Fernando Meirelles e Katya Lund vai estar muito próximo de trazer a primeira estatueta depois de algumas frustrações recentes ''O Que é Isso Companheiro ?'', de Bruno Barreto, e ''Central do Brasil'', de Walter Moreira Salles. No início de dezembro, ''Cidade de Deus'' já tinha sido premiado como um dos ''top ten'' de 2002, segundo o National Board of Review, entidade que congrega a crítica norte-americana.
Mas ainda não são favas contadas. Há muitas outras candidaturas oficiais correndo atrás das cinco vagas oferecidas pela Academia de Hollywood na categoria de filme estrangeiro, e que sacramentadas na primeira quinzena de fevereiro. São mais de 50 países cobiçando um prêmio que significa prestígio, visibilidade globalizada e consequente desdobramento do processo de colocação do produto no mercado internacional. Para a avaliação dos acadêmicos há opções de peso considerável. Da Bélgica, o belo e grave ''O Filho'', dos irmãos Dardenne. Da França, uma coletânea de divas em ''8 Mulheres''. Premiado em Cannes, ''O Homem Sem Passado'', da Finlândia. O contundente ''Lilia 4-Ever'', da Suécia. O trágico e poético ''A Casa de Loucos'', russo premiado em Veneza. E uma série de bem recomendados asiáticos, além de azarões como o argentino ''Kamchatka'' ou o português ''O Delfim'' ou ainda o dinamarquês ''Corações Abertos'', exemplar temporão do movimento Dogma 95.


