OSCAR - 'Encontros e desencontros' de Sofia Coppola
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Poucas vezes um ator apanhou tanto em início de carreira. Há 14 anos, no lançamento da terceira e última parte de ''O Poderoso Chefão'', a crítica foi impiedosa, e até os colegas de profissão não deixaram por menos. Nepotismo explícito e mal resolvido, o casting de Sofia Coppola na última parte da saga ''O Poderoso Chefão'' foi decidido por Francis Ford quando Winona Ryder recusou o papel de Mary, a filha de Michael (Al Pacino) e personagem decisivo que é sacrificado - na sequência do tiroteiro na escadaria - em nome da perpetuação do poder mafioso. Então com 19 anos, embora não uma estreante, Sofia foi mal e mereceu as restrições. Mas a fragilidade do roteiro e uma preguiçosa, descuidada direção daquela sequela realizada em 1990 complicaram a situação dela. A moça foi levada praticamente sozinha à execração em praça pública e se transformou no providencial bode expiatório de papai Francis...
Muitos teriam enfiado a cabeça no chão e ficado lá se lamentando. Não Sofia. A timidez e a fragilidade física escondem talento, determinação e uma beleza, digamos, corleônica. Pouca gente da mídia se lembrou, enquanto castigava sua perfomance, que dois anos antes ela havia co-escrito o ótimo roteiro do curta ''Life Without Zoe'', dirigido por Francis e um dos três episódios do longa ''New York Stories''. E então veio a estréia na direção com ''As Virgens Suicidas''. Exibido fora de concurso em Cannes-1999, o drama duro, tenso sobre uma América socialmente enferma e repressora foi visto por uma platéia de jornalistas ressabiados a princípio, aliviados após a projeção. Não é um primor, mas deixou claro que Sofia vinha na contramão do varejão hollywoodiano, com apreciável carga de talento e sensibilidade. Ali, na seção paralela ''Um Certain Regard'', estava nascendo a autora que agora amadureceu de vez em ''Encontros e Desencontros''. O filme, que saiu da première mundial ano passado no Festival de Veneza com o prêmio de melhor atriz para Scarlett Johansson, concorre a três estatuetas importantes na 76 cerimônia do Oscar, amanhã em Los Angeles.
Há o lado estatístico, de curiosidades e feitos históricos com relação ao Oscar. Sofia é a primeira mulher norte-americana a concorrer ao Oscar de melhor diretora, e a terceira cineasta nominada ao prêmio em 76 anos. Antes dela foram a italiana Lina Wertmuller por ''Pasqualino Sete Belezas'' em 1976 e a neozelandesa Jane Campion por ''O Piano'', em 1993. Nenhuma levou, embora Jane tenha ganho o de melhor roteiro. O Oscar de direção parece ser cativo dos homens. Sofia é ainda a primeira mulher americana a concorrer aos Oscar de melhor filme e melhor roteiro original, e é nesta categoria que estão as melhores chances, já confirmadas pelo Globo de Ouro conferido pela imprensa estrangeira (o ator Bill Murray, também premiado com o Globo de Ouro, é um dos dois favoritos, ao lado de Sean Penn). E finalmente, se Sofia Coppola ganhar pelo menos um Oscar, sua família (o pai Francis e o avô, o compositor Carmine) será o segundo clã que consegue a estatueta em três gerações distintas. O primeiro é dos Huston: Walter, John e Angélica.
Há, porém, o outro lado, o do reconhecimento. Lançado há várias semanas no Brasil e, como outros títulos importantes na corrida do Oscar, ainda inédito em Londrina por descaso ou desinteresse do exibidor sempre de olho somente em ''peixe grande'', ''Encontros e Desencontros'' é recebido com festa pela crítica e pelo público por onde passa. Este delicado conto agridoce sobre o relacionamento de dois desiludidos e solitários em Tóquio, feito de sutilezas balanceadas entre comicidade e amargura, representa o ingresso definitivo de Sofia Coppola no seleto clube dos diretores que de fato têm algo a dizer.


