Os versos eróticos de Back
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
O cineasta Sylvio Back é múltiplo: sai detrás das câmaras para cuidar de poesias. Em janeiro de 2000 lança (ainda não sabe onde) seu terceiro livro de poemas eróticos. Ou fesceninos, como gosta de citar. Com o título de Boudoir (palavra francesa que designava aposentos reservados nos restaurantes, no começo do século, onde se regava sexo com champanhe e ceias suntuosas) está saindo pela editora carioca Sette Letras.
Faço uso explícito das palavras de baixo calão, avisa o autor. São 42 textos acondicionados num volume de 60 páginas, que seguem uma escola incomum da lírica brasileira, a erótico-pornográfica. Porém, na história das literaturas ocidental e oriental, há toda uma linhagem de ilustres culturas, comenta Back.
A origem destes versos tem suas raízes nas camadas mais simples da população de Fescência, na Roma Antiga, e atravessou os séculos chegando até os dias de hoje. Desde Ovídio, passando por Bocage e os brasileiros Bernardo Guimarães, Oswald de Andrade e Drummond de Andrade, muitos foram os poetas que se detiveram a escrever versos lúbricos. A produção nacional é praticamente desconhecida, devido a uma censura velada dos principais exegetas da nossa literatura e poesia, alfineta Back.
Uma visão equivocada, como se quisesse salvaguardar a imagem do escritor. Indiferente a cuidados e preconceitos, o cineasta orgulha-se em ser um dos poucos no Brasil a trabalhar com este ramo literário. A crítica é preconceituosa e hipócrita. Ela penaliza essa poesia como obra menor. A mesma visão tem a maioria dos livreiros. Discretamente, se recusam até expor a obra, quem dirá vendê-la, prossegue Back.
Há uma contradição nisso tudo, porque vivemos hoje tempos de alta permissividade, reflete o autor. Ainda assim as pessoas não suportam o eco verbal de corpos afundados em sexo, especialmente se presentes a alegria, o despudor e o prazer do desejo.
Para Sylvio Back, descrever e poetar sexo ainda é um interdito irrecorrível, enquanto descrever e banalizar o crime é o trágico deleite a que somos diariamente constrangidos. À vontade com seus textos, o cineasta/poeta defende-se com um comentário vindo do matogrossense Manoel de Barros, um dos grandes artífices da poética nacional: A poesia empurece qualquer palavra.
O Náufrago
ah este corpo-humor
sempre tão aquoso
ah este cio-cilício
sempre tão artífice
ah estes lábios-cálice
sempre tão carnaválios
ah esta hiléia-ígnea
sempre tão carnívora
ah estes risos-gêmes
sempre tão gemidos
ah este túnel-úbere
sempre tão netuno
ah este corpo-horto
sempre tão porto
(Sylvio Back)





