Nelson Sato
De Londrina
Livros de poesia, como se sabe, jamais aparecem em listas de ‘‘mais vendidos’’. Houve um tempo, no entanto, que títulos do gênero chegavam a esgotar sucessivas edições transformando seus autores em verdadeiros heróis da esquerda estudantil.
O poeta amazonense Thiago de Mello viveu a euforia desse período. Em 1965, publicou ‘‘Faz Escuro, Mas Eu Canto’’, que logo virou um best seller da editora Civilização Brasileira. Na época, a cantora Nara Leão costumava entoar versos da obra entre um acorde e outro de violão durante seus shows.
É essa coleção de poemas que está retornando às prateleiras, em sua 17ª edição, desta vez pela editora Bertrand Brasil. O volume, que foi traduzido para mais de 30 idiomas, é confessadamente o preferido do autor: ‘‘Não é o melhor nem pior de quantos escrevi e continuo a escrever: é só o mais querido’’, diz ele no texto introdutório.
Thiago de Mello, hoje com 73 anos, lembra ainda nas primeiras páginas que o título do livro foi emprestado de uma pichação vista numa cela de um quartel do Rio de Janeiro, onde esteve preso após a decretação do Ato Institucional nº 1 pelos militares.
‘‘Faz Escuro, Mas Eu Canto’’ contou pela primeira vez com sua colaboração no tratamento final da reedição. Ele cortou um e outro verso, eliminou palavras e inseriu o ano e a circunstância em que os poemas foram gestados. Sobre o famoso ‘‘Os Estatutos do Homem’’, por exemplo, ele anota: ‘‘Quinta normal. Santiago de Chile, abril de 64’’. O texto, dedicado ao romancista Carlos Heitor Cony, talvez seja o mais conhecido de sua produção e sintetiza sua poética ‘‘da esperança’’. (veja texto nesta página)
Mello nasceu no município de Bom Socorrro, no Baixo Amazonas. Cursou medicina antes de dedicar-se à atividade de escritor. Lançou o primeiro livro, ‘‘Silêncio e Palavra’’, em 1951. A partir daí, começou a frequentar o círculo de intelectuais da época. Os poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Pablo Neruda foram alguns de seus amigos e interlocutores.
Em 1961, foi nomeado adido cultural do Brasil no Chile, posto que ocupou até 1969, quando teve início seu exílio político. Após viver em diversos países da América Latina e Europa, o poeta retornou em 1977, ano em que saíram 4 novas reedições de ‘‘Faz Escuro, Mas Eu Canto’’. Desde então, mora em Barreirinha, cidade de 5 mil habitantes em plena floresta amazônica.
Em 1986, seus versos serviram de tema para uma peça sinfônica de Claudio Santoro, que foi executada com grande coral na solenidade de abertura da Constituinte. Recentemente, seu nome veio à baila com a indicação de seu livro ‘‘Campo de Milagre’’ ao Prêmio Jabuti 2000, cujo resultado será anunciado na sexta-feira durante a abertura da 16ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo.‘‘Faz Escuro, Mas Eu Canto’’, livro mais famoso do poeta amazonense Thiago de Mello, ganha 17ª edição
Arquivo Folha e ReproduçãoThiago de Mello, indicado este ano ao Prêmio Jabuti, não esconde sua preferência pelo livro que já foi traduzido para mais de 30 idiomas

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