Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 1999, ‘‘O Vento nos Levarᒒ, em exibição apenas em Curitiba , é um desses momentos de exceção na tela, quando as imagens estão exclusivamete a serviço não da ação, mas da reflexão filosófica, da contemplação poética. O iraniano Abbas Kiarostami, como o grego Theo Angelopoulos, é um desses cada vez mais raros poetas por trás das câmeras. Seu cinema é precioso e instigante, sempre convidando o espectador a participar, até enriquecendo a proposta. Num certo sentido, os filmes de Kiarostami são o equivaleente emimagens da obra aberta proposta por Umberto Eco.
Três estrangeiros chegam ao pequeno vilarejo de Siah Dareh, no Kurdistão iraniano. Um deles fica amigo de um menino que vai lhe servir de guia. Outro, vindo de Teerã, se interessa particularmente por uma mulher trabalhadora, de quem ele ouve as notícias do local. Quando perguntam o que faz ali, ele responde que procura um tesouro.
Como no filme anterior, ‘‘O Gosto da Cereja’’ (Palma de Ouro em Cannes-97), esta pequena obra-prima de Kiarostami gira em torno de um mistério: a razão da presença dos três estrangeiros naquela localidade tão afastada, ao norte do Irã. Desta vez, porém, o realizador não tem e nem encontra respostas. A procura está fundada no desconhecido, na ausência e na morte. Grave sem ser demasiadamente sério e pesado, o filme tem o esplendor visual de ‘‘Através das Oliveiras’’ mas está de fato bem mais próximo da sensação áspera e não raro incomoda causada pelo citado ‘‘O Gosto da Cereja’’. Aqui, porém, as buscas existenciais têm bem menos certezas do que em vezes anteriores. E bem por debaixo de uma aparente complexidade, a poesia se abre inteira à disposição, à sensibilidade e à boa vontade do espectador.
Como característica perene em Kiarostami, a estesia funciona como elemento indissociado da narrativa. A câmera parece estar sempre no local exato para maximizar os tempos e a beleza de cada plano. (C.E.L.J.)

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