São Paulo, 23 (AE) - Rabo de lagartixa é o seguinte: vem o maldoso, corta, ele nasce de novo. Tão grande e forte quanto. Foi o que pensaram do choro Alexandre Brasil (contrabaixo), Alessandro Valente (cavaquinho), Marcelo Gonçalves (violão de seis cordas) e Daniela Spielman (saxes soprano e alto) ao criar o quarteto "Rabo de Lagartixa", nome do grupo e do disco, primeiro e brilhante, independente (e-mail: [email protected]), turma da renovação, Rio de Janeiro. Com participações muito especiais de Beto Cazes, Elza Soares, João Lyra, uma delícia. Inteligência, humor, vigor. Não é todo dia que se ouve música assim. Mas ouve-se, procurando-se.
São qualidades que se oferecem no novo disco de João Donato, "Só Danço Samba" (Lumiar). O pianista e compositor, uma das personalidades distintas da música brasileira, dedicou o trabalho à obra de Tom Jobim, que aborda da maneira peculiar que se espera dele. É seu primeiro álbum dedicado a um único compositor. A turma: Jorge Hélder, contrabaixo; Wilson das Neves
bateria; Sidinho Moreira, percussão; Vittor Santos, trombone; Ricardo Pontes, sax alto e flautas; Jessé Sadoc e Nelson Oliveira, trompetes e flugelhorns. "Corcovado", "Wave", "Triste", "Outra Vez", em ótica muito especial. A bossa também tem seus rabos de lagartixa.
E o samba tem também, como vem provando e prova de novo Zeca Pagodinho, em "Pagodinho ao Vivo" (Universal), gravado no início do ano, no Rio de Janeiro, do show dirigido por Túlio Feliciano e com arranjos e direção musical de Paulão. Embora o repertório esteja quase todo em outros discos do grande Zeca, esse capta a criatividade do cantor em palco, com seus músicos, contagiado pela empolgação do público (e em seus shows a empolgação do público é quase um espetáculo à parte). Irresistível, pelo gênio de Zeca, pela qualidade dos sambas, uma antologia do que você pode hoje ouvir de melhor, de Nei Lopes e Wilson Moreira (Sapopemba e Maxambomba) a Nelson Rufino e Carlinhos Santana (Verdade).
Mas a mesma gravadora que lança o disco de Zeca insiste na bobagem do projeto "Casa de Samba", já no terceiro volume, uma confusão que mistura alhos com bugalhos e não vai a lugar nenhum. Melhor evitar a confusão que junta, desconjunta, Caetano Veloso e a cantora da Banda Beijo, Martinho da Vila e a cantora da banda Cheiro de Amor, o cantorzinho do Terra Samba e Alcione, Joanna e Délcio Carvalho. Proposta para a Universal: que grave um disco do Délcio Carvalho, gênio meio esquecido, um disco do Walter Alfaite, que comparece meio oculto numa faixa, ao lado de Leila Pinheiro, um disco da Dona Ivone Lara, que se divide em dueto com Zélia Duncan. A idéia do projeto "Casa de Samba" é uma das coisas mais estúpidas dos últimos tempos - e são tempos de coisas muito estúpidas.
Melhor, portanto, mudar de assunto. Melhor, ainda, mudar para a Banda Paralela, que chega ao disco de estréia, "Banda Paralela" (e-mail: [email protected]), com disposição para reciclar o som dos coretos. Eles são Alexandre Daloia (flauta, pícolo, escaleta), Silas Homem (sax barítono), Roberto Gastaldi (trompete), Márcio Forte (percussão), Tiago Sormani (sax alto) e Sílvio Giannetti Jr (trombone e bombardino). Uma delícia, com um repertório que poderia ser mais dirigido à música brasileira, mas tudo bem. Coreto tem mesmo de tudo. Mas eles são melhores nos "Peixinhos do Mar" (adaptação de Tavinho Moura para o canto folclórico mineiro) do que na adaptação do "Zaratustra", de Richard Strauss. É o único senão.
Pulando para o norte, quase não há senões em "Tudo Isso é São João", da Banda de Pífanos de Caruraru (Trama). A formação tem quase 80 anos de atividade e dedica esse disco a peças muito conhecidas, de "Assum Preto" (Luís Gonzaga e Humberto Teixeira) a "Isso Aqui tá Muito Bom" (Nando Cordel e Dominguinhos). Quase não há senões: o disco sustenta a rusticidade da música do grupo, o cheiro agreste, a determinação um tanto abrupta das intervenções. O trabalho de estúdio poderia seu um pouquinho mais caprichado, coisa da parte técnica, nada a ver com os músicos. Mas vale a iniciativa.
Pulando para o sul, louve-se o belo trabalho instrumental do gaúcho Geraldo Flach Quarteto, no disco "Atitude" (RGE), mais uma tomada de posição do ótimo pianista chefe do grupo completado por Ricardo Baumgarten (contrabaixo), Ricardo Arenhaldt (bateria) e Glouani Berti (percussão). Música culta, refinada. O "Baiãozinho", de Geraldo, é uma preciosidade. O professor Rolando Boldrin aplica sua sabedoria de sambista paulistano (ele não é só cantor de interiores) ao repertório de Assis Valente (Boneca de Pano) ou Dorival Caymmi (Vatapá), recriando os arranjos originais dos anjos do Inferno, Bando da Lua, Quatro Ases e Um Coringa. O disco, também da RGE, chama-se "Esquentai Vossos Pandeiros" e é uma pérola de pesquisa e carinho. Solo - Todos os elogios serão poucos para o disco "Outras Paisagens" (Paradoxx), do veterano Kapenga Ventura, que volta a cena em solo, com uma penca de novas composições. Destaque-se a compilação "Colecionave", do poeta Ronaldo Bastos (Dubas) que reuniu num disco só as gravações de suas músicas por Gal Costa, Ed Motta, Elis Regina, Maria Bethânia, Tim Maia, Edu Lobo, Beto Guedes e mais uma quantidade. "Trem Azul", "Zanga Zangada", "Um Gosto de Sol". Coisas que conhecemos e amamos.
Dois projetos especiais no destaque, a compilação "20 Super Sucessos", de Luiz Vieira (tudo em novas gravações, lançamento PolyDisc: Menino de Braçanã, Na Asa do Vento, Prelúdio pra Ninar Gente Grande) e a homenagem de Pery Ribeiro a Taiguara (Tributo a Taiguara, Movieplay), com "Viagem", "Hoje", "Helena, Helena, Helena", poesia apaixonada do poeta recentemente falecido, não nos esqueçamos dele. O saxofonista Mané Silveira e o violonista Swami Jr. juntaram-se no precioso "Ímã" (Núcleo Contemporâneo) com o propósito de grudar-nos para sempre em sua grande música. É um prazer.

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