Os últimos dias de Los Angeles
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de setembro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoO famoso Wilshire Boulevard de Los Angeles, pós-VolcanoFoi com certeza uma das temporadas mais demolidoras dos últimos anos. Atolados em dólares, os quatro elementos se deram as mãos e levaram aos cinemas do mundo multidões predispostas ao arrepio e ao desembolso. A fúria natural foi uma vez mais o pretexto para novas orgias de gastos. Terra (Anaconda), ar (Con Air), fogo (O Inferno de Dante) e água (Velocidade Máxima 2) garantiram boa parte do lucro do ano para os grandes estúdios. E, embora sem despertar grandes paixões, Volcano, a Fúria (em exibição em Curitiba, Londrina e Maringá) vem a reboque desta safra de produtos rentáveis pela própria Natureza...
Hollywood sob a lava Depois de O Inferno de Dante, via Universal, mais um rio de lava escorre de outro grande estúdio. Produzido pela Fox com 100 milhões de dólares - quase um milhão por minuto de filme pronto - e dirigido pelo inglês Mick Jackson ( L.A. Story, O Guarda-Costas), Volcano é a história de um desses desastres anunciados quando já é muito tarde.
Desta vez a porta-voz da tragédia é uma jovem e bela sismógrafa (Anne Heche, de Donnie Brasco) que registra o surgimento de um vulcão ativíssimo, na iminência de expelir o tórrido magma primordial, isto é, a matéria-prima de que são feitas as profundas do inferno. Mas se alguém pensou no pânico caipira de uma pequena e simpática cidade encravada entre montanhas, de resto situação geográfica propícia às erupções como em O Inferno de Dante, não poderia estar mais enganado. No caminho das chamas liquefeitas está agora nada menos que Los Angeles, já bastante castigada pelo cinema, em qualquer sentido que se queira dar a esta punição.
Candidata à Pompéia do fim do milênio, a cidade dos anjos bebe o fogo que o diabo destilou e que a Natureza imprevisível serve em doses devastadoras. Imprevisível e no caso cinematograficamente inverossímil: segundo vulcanólogos, a possibilidade de um vulcão ocorrer em L.A. é zero. No máximo, seria possível uma erupção no deserto vizinho. E no vale-tudo do faz-de-conta, quem também surge como improvável salvador da pátria é Tommy Lee Jones, que acaba se compenetrando da missão e felizmente atua do lado que se espera em caso de comoção coletiva.
Humor e pânico Para impregnar Volcano com a verossimilhança negada pela ciência, a Fox reconstruiu Los Angeles: cerca de um quilômetro de ruas com edifícios em escala quase natural e destinado a servir como palco daquilo que um bem-humorado jornalista da revista Entertainment Weekly chamou de a maior churrascaria a céu aberto do mundo. Fala-se em 150 mil galões de propano líquido, uma tonelada e meia de explosivos.
Mas a grande vedete do filme é mesmo a lava, exaustivamente testada e modificada em laboratório antes de escorrer diante das câmeras. Efeitos digitais se encarregaram de aperfeiçoar a ilusão de movimento de sua massa. Em algumas cenas, as maquetes foram atingidas por uma espécie de magma artificial cuja receita é guardada a sete chaves pelos técnicos. Tudo, como sempre, consumado com perícia e extrema sofisticação tecnológica.
O pânico em Volcano não ficou restrito aos personagens da ficção. Logo no início das filmagens, os chefões da Fox tremeram com a notícia de que a concorrência - a Universal - já estava trabalhando num projeto de lava movie. Corria o ano de 96, e por algum tempo os dois estúdios pensaram em unir forças para evitar que, nas bilheterias, o disaster movie não se transformasse em desastre real e irremediável (há 20 anos, a mesma Fox e a Warner celebraram um acordo e juntas bancaram o sucesso Inferno na Torre). Desta vez não houve colaboração, e a Fox tratou de acelerar a produção para neutralizar a desvantagem inicial. Mas outro problema comprometeu de vez o cronograma de Volcano. Sondado para o elenco, Bill Pullman pediu 7 milhões de dólares. A Fox contra-atacou com 5, e mais uma vez não houve acerto, já que o ator andava também relutante em embarcar em nova catástrofe depois de Independence Day. O resultado foi que O Inferno de Dante ganhou a corrida e foi lançado antes, obrigando os executivos da Fox a rever a estratégia de lançamento de Volcano.
Volcano, a Fúria - Estados Unidos, 1997. Roteiro de Jerome Armstrong. Produzido por Lauren Shuler Donner. Dirigido por Mick Jackson. Com Tommy Lee Jones, Anne Hache, Stanley Tucci, Gabby Hoffmann, Jacqueline Kim.


