Os traços loucos de Fí
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Rafael Ceribelli<br>Reportagem Local 
Um personagem orelhudo, com sorriso irônico, está sentado em um banco de ônibus rodeado por caricaturas de ilustres figuras do show business brasileiro. A notícia, exclusiva, é essa: ''Chegamos no Fundo do Baú, e descobrimos que Silvio Prantos está mais falido que você!''. A ironia perversa contida na capa da 33 edição da Mad, que está nas bancas em janeiro, não é nenhuma novidade na publicação.
Desde a sua criação, na década de 50, a revista Mad - uma expressão para 'louco', em inglês - tem como objetivo trazer em suas páginas cartuns com humor politicamente incorreto, carregado de críticas inteligentes e buscando expor, com uma boa dose de sarcasmo, os assuntos em pauta na imprensa. Erguendo a bandeira da subversividade, a Mad caiu no gosto do público jovem americano, e o humor ácido em meio à Guerra Fria logo ganhou contornos revolucionários - investigada pelo FBI por incitar a delinquência juvenil e proibida pelo governo nos anos 60, a censura fez a publicação maluca ganhar ainda mais força: os desenhos da revista se transformaram em uma referência da sátira política nos EUA da época.
Sempre trazendo o seu personagem símbolo na capa - o risonho desdentado batizado com o nome de Alfred E. Neumann - o sucesso da Mad ultrapassou fronteiras e espalhou suas edições por 19 países. A versão da revista no Brasil atingiu, no ínicio dos anos 80, o sucesso absoluto entre o público jovem, mesclando o material americano com os temas nacionais. ''Eu sou daquela geração criada pela Mad'', afirma o cartunista londrinense Richard Bittencourt, o Fí, que há um ano publica seus desenhos na revista e que é o destaque na edição deste mês, com a página 'Promessas Falsas para 2011'. ''Geralmente eu mando esboços, eles escolhem o que gostam, e eu trabalho em cima. Desta vez eles deram a ideia principal e eu entrei com a criação das tiras'', explica.
O londrinense já rascunha há algum tempo no mundo dos cartuns e, antes de começar a publicar para a Mad, dedicou sua criatividade para criar os personagens de suas zines "O diário de um Psicopato" e "Ânsia na Goela", duas publicações recheadas de humor tosco e distribuidas gratuitamente pela cidade. ''Eu rabisco coisas desde sempre, e desenhar sempre foi uma coisa natural para mim. Até eu ser publicado, fiquei enchendo bastante o saco dos caras da revista'', brinca Fí, que aponta a perseverança como sendo um elemento fundamental na vida de um cartunista. ''É importante a qualidade do trabalho, mas também é preciso sempre batalhar e evoluir suas ideias com dedicação. Só não pode desistir'', afirma.
Tratando com humor as misérias alheias e, vez por outra, esbarrando ainda na censura - a capa da edição de fevereiro do ano passado, com a então ministra Dilma Roussef, foi proibida de sair por aqui - a Mad de hoje é quase esquecida nas bancas, mas ainda preserva bravamente o seu caráter anárquico, responsável por elevar seus cartuns para o topo da crítica mundial.
Uma célebre definição sobre a importância da revista veio nas palavras do premiado cartunista Art Spielgman: ''No final, a mensagem que a Mad quer passar é: a mídia está mentindo para vocês. E nós somos parte da mídia. Então, pensem por vocês mesmo, crianças''. No final das contas, o sorriso bobo de Alfred é, na verdade, ele rindo de nossa cara.


