O que faz com que um bairro, uma rua ou uma avenida se deteriore a ponto de se transformar num ponto decadente da cidade? Os urbanistas e arquitetos são os profissionais mais indicados para responder a questão, mas provavelmente nenhum outro artista seja capaz de apontar as causas com tanta sutileza e imaginação quanto Will Eisner.
Em sua graphic novel ''A Vizinhança Avenida Dropsie'' (Devir), que chega agora ao Brasil nove anos depois de ser publicada nos Estados Unidos, o mestre dos quadrinhos narra a saga de uma via de Nova York ao longo de um século. Com uma visão histórica impressionante, ele mostra como ela se formou, cresceu e entrou em declínio através das gerações.
Focalizando algumas famílias e personagens, Eisner costura os dramas dos moradores, refazendo a trajetória do local a partir de 1870 quando reunia apenas algumas propriedades de imigrantes holandeses até sua transformação num território multiétnico. É ao debruçar-se sobre os costumes, mazelas e ambições dos personagens, porém, que o autor vai revelando o complexo de fatores que os tornam tão sujeitos quanto vítimas da devastação sofrida pelo lugar que habitam.
Na abertura do volume, os ''Dropsie'' resmungam sobre a aquisição de lotes nas vizinhaças por fazendeiros ingleses. A queixa logo se transforma em intolerância, que culmina numa tragédia familiar. Duas páginas depois, aparecem ingleses lamentando a mudança de irlandeses para a rua, os quais reclamam em seguida da vinda de alemães, a quem tratam de ''chucrutes''. Também os alemães não demoram a imprecar contra italianos, chamados de ''carcamanos''.
Estes, por sua vez, torcem o nariz para judeus, negros e latinos. O ciclo de conflitos é reproduzido sucessivamente pelas gerações retratadas ao longo das 176 páginas. Eisner mostra que a politicagem, a corrupção, a bandidagem e a especulação imobiliária caminham juntas para a destruição do bairro. A instalação de uma estação de trem na avenida traz junto a construção de cortiços, que passam a ser ocupados por grupos étnicos e sociais diversos.
O crash da Bolsa de Valores em 1929 empobrece mais o bairro impulsionando o fechamento de lojas de comércio, o sub-emprego, a ascensão do mercado negro e o surgimento de bocas-de-fumo. ''Izzy Cash, aquele velho mendigo, agora é o dono da maioria dos prédios daqui. Eles estão desabando e fedem! As ruas estão cheias de carros. As crianças não podem mais brincar nas ruas. Agora temos gangues! A cidade ignora o lugar. Nem os lixeiros passam regularmente'' diagnostica, num trecho, um dos personagens.
''Só os mais pobres estão vindo pra cá! Aluguel baixo'' diz outro. No texto introdutório, Eisner mostra que sua ficção foi inspirada no bairro do Bronx, de Nova York, cuja história registrou uma progressiva deterioração culminando na década de 70 com um quadro onde se via ''uma área demolida, montes de entulho e crimes''. Além da própria experiência como morador do local, sua principal fonte de pesquisa teria sido um estudo de Alan Edelstein sobre a decadência do bairro.
A avenida Dropsie é tema ainda de uma coletânea de quatro HQs, intitulada ''Pequenos Milagres'', que a editora Devir deverá lançar até o final do ano País. Um outro título previsto para chegar aos leitores brasileiros nesta temporada é ''Narrativas Gráficas'', livro teórico que aprofunda as análises de ''Quadrinhos e Arte Sequencial'' (1985), considerada uma espécie de cartilha básica para compreender a linguagem do gênero.
Aos 87 anos, o mestre continua produzindo como nunca.

Serviço:
- A Vizinhança Avenida Dropsie, de Will Eisner. Lançamento Devir (telefone. 11/33475-700). Preço: R$ 35,00.

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