São Paulo, 12 (AE) - O que seria da arte sem a história da arte? Talvez não soubéssemos o significado de "As Meninas", de Velásquez, nem a importância de Picasso para a arte contemporânea. Uma sala de mil metros quadrados da 4.ª Bienal Internacional de Arquitetura, que será aberta no dia 20, vai mostrar a maneira como um pesquisador destrincha os caminhos da arte. "Robert Smith: a Investigação na História da Arte" é a reunião de fotos e documentos do historiador Robert Smith, um americano da Pensilvânia que resolveu, na década de 30, estudar a arte barroca portuguesa e a arte colonial brasileira.
"É a primeira vez que se faz uma mostra sobre a história da arte e não da arte, propriamente", diz o curador Dalton Sala, um brasileiro que durante seis anos organizou todo o acervo pessoal de Smith - um total de 12 mil fotografias, além de papéis, anotações e manuscritos, reunidos em 50 anos de trabalho - doado à Fundação Gulbenkian, de Portugal. Antes da 2.ª Guerra Mundial, a arte e a arquitetura barrocas não chamavam a atenção dos pesquisadores norte-americanos. O trabalho de Smith, filho de uma família abastada que logo se mostrou um menino prodígio, ganhou destaque na Universidade de Harvard.
Em 1933, ele escreveu um trabalho de pré-licenciatura sobre o arquiteto napolitano Luigi Vantivelli. Dois anos depois, escreveu "A Arquitetura de João Frederico Ludovice e de Alguns dos seus Contemporâneos", sobre o arquiteto alemão responsável pelo projeto do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal. "Smith descobriu Portugal por causa de Vantivelli, pois este artista admirava a arte portuguesa", explica Sala.
O estudo do Palácio de Mafra foi feito entre 1935 e 36. Apenas um ano depois, o pesquisador decidiu embarcar para o Brasil. Com o auxílio de uma bolsa, ele veio fotografar a arte e a arquitetura brasileira para a Biblioteca do Congresso, em Washington. "Era o início da guerra e o governo brasileiro mostrava sua simpatia pelo Eixo, por isso os EUA adotaram uma série de estratégias para se aproximar do País, inclusive no campo da cultura", explica Sala.
Smith não foi responsável só pela presença de um grande número de fotos e reproduções de peças da arte colonial brasileira na Biblioteca do Congresso. "Ele fez os contatos para que a direção fizesse o convite oficial e Portinari realizasse os painéis da Biblioteca", diz Sala. A Bienal de São Paulo vai abrigar a parte da coleção de Smith que está mais voltada ao estudo da arquitetura. Esculturas e móveis, além de trabalhos feitos em madeira, tiveram de ficar do outro lado do Atlântico.
Mas quem for a Lisboa, a partir de abril, poderá ver parte da coleção que fala sobre as investigações de Smith no campo da pintura e dos desenhos, em uma exposição que será inaugurada na própria Fundação Gulbenkian. Bienal - Os jovens que forem à Bienal de Arquitetura e não viveram na época de Smith poderão usar o Eixo Histórico para se situar na linha do tempo. Mais de 200 fotos compradas da Agência Estado vão associar fatos históricos aos anos citados para contar a vida do historiador. "Por exemplo, quando falarmos que um determinado fato vivido por Smith ocorreu em 1945, haverá uma foto da bomba de Hiroshima, como referência temporal", explica o curador.
Outra viagem no tempo poderá ser feita por meio de fotos recentes de obras que haviam sido fotografadas por Smith, para mostrar como os partidos e fachadas arquitetônicos se transformaram. "Fotografamos a Igreja da Glória, no Rio, e percebemos que a fachada tinha permanecido exatamente como era na década de 30; o cenário, no entanto, mudara completamente", relata Sala.

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