Sons emocionais e associações entre cordas e partes orquestradas com grooves e batidas para o corpo. Essa definição do próprio cantor e compositor escocês David Byrne sobre sua nova empreitada musical, o CD ‘‘Look into the Eyeball’’, está na web page de sua gravadora Luaka Bop - a mais ativa embaixada da MPB na América do Norte.
‘‘No período em que trabalhei neste disco, eu ouvi a música de muitos artistas: Caetano Veloso, Björk, Serge Gainsbourg e a soul music de Stevie Wonder’’, diz Byrne, de 48 anos. ‘‘Eu me senti bem, inspirado a tentar essa boa combinação entre percussão e cordas - a energia da percussão misturada à suavidade das cordas’’, ele afirmou. ‘‘O resultado é suave e dançante, com um pouco de melancolia.’’
‘‘Look into the Eyeball’’ tem seu lançamento mundial no dia 8, com show no Lee’s Palace de Toronto. ‘‘Em setembro ou outubro devo passar pelo Brasil’’, adianta Byrne. Será ele uma das atrações do Free Jazz Festival? ‘‘Para ser honesto, não gosto de festivais, eles não são propícios para a música. São uma experiência mais próxima dos grandes jogos de futebol.’’
A busca de uma música ‘‘que faça as pessoas dançar e também chorar’’ levou Byrne por diversos caminhos. Ele conta que compôs boa parte dos temas em uma pequena cidade feia e chuvosa da Andaluzia, e que o resultado foi cru e básico. A partir de seu retorno a Nova York, começou a sobrepor àquela primeira camada de sons uma miríade de parceiros e influências sonoras.
A Espanha foi, obviamente, a primeira grande influência. Tanto que Byrne se arriscou a gravar em espanhol, embora tenha pouco domínio do idioma. ‘‘A idéia inicial era cantar em inglês, mas a canção pedia a sonoridade da palavra em espanhol, soaria melhor’’, ele explica. ‘‘Eu disse a mim mesmo: talvez cause certo embaraço, mas vou tentar.’’
O temor, no entanto, persistiu, e ele enviou um tape a Ruben, do grupo mexicano Café Tacuba, pedindo-lhe uma segunda voz na interpretação de ‘‘Desconocido Soy’’. Byrne já tinha colaborado com o Café Tacuba no disco deles, ‘‘Avalancha de Exitos’’. Ruben não se fez de rogado e gravou sua voz para Byrne.
Outro estrangeiro a quem recorreu foi o brasileiro Jaques Morelembaun, com quem gravou a faixa ‘‘Smiles’’. ‘‘Jaques entende profundamente as coisas do Brasil, as coisas mais rudimentares e as mais sofisticadas, e seu som evoca memórias de mim mesmo’’, ele tenta explicar. ‘‘Quando ouvi o que ele tinha composto para a canção, foi um choque.’’
Já ‘‘Noites do Norte’’, do amigo Caetano Veloso, Byrne só ouviu recentemente e diz ter gostado do trabalho. Mas preferiu elogiar com mais ênfase a estréia do filho do cantor baiano, Moreno Veloso, que foi ver no Canadá e que o deixou muito bem impressionado. Segundo ele, Moreno fez um disco que une com eficiência o experimentalismo e sutilezas sonoras.
Outro brasileiro que aparece no disco é Vinícius Cantuária, há algum tempo exilado no mercado de música inglesa. Ele improvisa (com Paulo Braga) uma batucada na faixa ‘‘The Great Intoxication’’. Sebastian Steinberg (ex-Soul Coughing) e Brad Jones tocam baixo no álbum.
O músico também convidou Greg Cohen, responsável pelos arranjos das canções de Tom Waits na ópera The Black Rider, de Bob Wilson, para criar ambientações acústicas nas faixas ‘‘The Revolution’’ e ‘‘The Accident’’.
Responsável por projetos no limite entre a música e a imagem desde os tempos em que militava à frente da banda Talking Heads, David Byrne esteve presente - com as marcas das suas mãos em moldes de gesso - na instalação de Robert Rauschenberg no Withney Museum, intitulada ‘‘Synapsis Shuffle’’.
Por conta desse apreço, ele demonstrou satisfação ao saber que andou pelos palcos de São Paulo no balé ‘‘In Spite of Wishing and Wanting’’, do coreógrafo belga Wim Vandekeybus, cuja música é de autoria dele, Byrne.
‘‘Conheci Vandekeybus há oito anos, quando vi uma pequena peça dele na Europa’’, conta o cantor. ‘‘Era um trabalho muito imaginativo, com elementos de teatro, música, dança, e acabamos nos tornando amigos’’, lembra. Fizeram planos de fazer algo juntos. Há dois anos, Vandekeybus o procurou com a idéia de fazer um filme no Marrocos, que malogrou. ‘‘Então ele mudou o conceito e nós começamos a trabalhar - eu lhe dava músicas e ele me dava movimentos.’’
A associação entre música, imagem e movimento é uma constante do trabalho de David Byrne desde que iniciou sua carreira-solo. O primeiro disco foi com ninguém menos que o inquieto Brian Eno, ex-Roxy Music, o experimental ‘‘My Life in The Bush of Ghosts’’, nos anos 80. É dele também a trilha de ‘‘O Último Imperador’’ e a trilha para performances de artes visuais Your Action World.
Nascido em Dumbarton, Escócia, no dia 12 de maio de 1952, Byrne mudou-se ainda criança para Baltimore, nos Estados Unidos, e estudou design e arte conceitual em Rhode Island. Com Tina Weymouth e Chris Frantz, ele criou a usina pop Talking Heads, que deixou pela carreira-solo, de caráter artístico mais abrangente.
Foi ator no curta de Jonathan Demme, ‘‘Trying Time’’, e compôs duas faixas para o álbum ‘‘Songs from Liquid Days’’, de Philip Glass. Esteve ao lado de Robert Fripp e resgatou a carreira de Tom Zé de um limbo profundo, ajudando com isso a renovar a cena alternativa americana. Tom Zé, hoje, é citado como combustível musical por grupos e músicos tão distintos como o Tortoise e Beck.

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