Os sonhos segundo Freud
Faz cem anos que Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos, um dos livros fundamentais da cultura ocidental neste século
ReproduçãoBerlim, 1928: Freud embarca em seu primeiro vôoReproduçãoO famoso divã em que Freud atendia a seus pacientesWilson Bueno
Especial para a Folha2
Quando, no verão de 1899, o Dr. Sigmund Freud recebeu do editor Franz Deuticke o primeiro exemplar de A Interpretação dos Sonhos, que acabara de ser publicado em Viena e Leipzig, um catatau de mais de 500 páginas, sobre um tema ainda hoje polêmico, talvez intuísse, pela segurança que punha em seus estudos e descobertas, que aquilo tudo era só o começo. Ainda que pessimista incurável, o então jovem doutor, de 43 anos, sabia o que Die Traumdeutung (título do livro, em alemão), cuja folha de rosto já antecipava o ano de 1900, iria provocar pelo século afora. Se intuiu assim, mais uma vez não errou, legando à Humanidade o que ele próprio considerava a sua opera magnum, e que não só vem resistindo ao tempo, como - é hoje ponto pacífico - se situa entre a meia dúzia de livros fundamentais dos últimos cem anos publicada em qualquer língua.
Mas nem tudo foi assim tão fácil - mesmo um século depois da primeira edição, A Interpretação dos Sonhos (editada no Brasil pela Imago, que detém os direitos para a língua portuguesa de toda obra de Freud) continua provocando toda sorte de reações entre leigos e cientistas, empenhada que foi, desde o princípio, em constituir um divisor de águas sobre a matéria. Nunca mais, depois deste livro, os sonhos humanos foram os mesmos.
Decifrados ora pelo viés supersticioso que atribuía aos nossos sonhos características divinatórias ou por um nascente neuro-psiquiatrismo que insistia em ver neles não mais que manifestação químico-fisiológica de um órgão de nosso corpo, no caso o cérebro, os conteúdos oníricos, até A Interpretação dos Sonhos, não tinham a menor importância. Coisa de poetas, de irrealistas, de gente não comprometida com o canhestro cientificismo do final do século passado. Não precisa ir longe - ainda hoje, à beira do terceiro milênio, o freudismo, e a própria psicanálise, com mais de um século de prática e vigência, são vistos, ambos, com um ceticismo exemplar, só explicável ou pela ignorância ou pela resistência às suas exigentes verdades.
O cerne e o sumo de Die Traumdeutung caíram como uma bomba nos meios científicos, e mesmo artísticos, da buliçosa Viena do final do século passado - o Dr. Sigmund Freud não fazia por menos - os sonhos eram a realização de desejos, no mais das vezes, recalcados ou suprimidos durante a vigília. E isto que parecia apenas mais uma assertiva, entre tantas, sobre a natureza onírica do homem, passava a se constituir em pedra de toque da psicanálise, ao lado da descoberta do inconsciente e de seus (secretos) mecanismos.
A reação, como seria de esperar, foi clamorosa - mais de uma vez, Freud foi ridicularizado, acusado de prática indevida da Medicina, e colocado como um curandeiro delirante pela comunidade científica da época. Vítima de campanhas sistemáticas, é de se notar (e lamentar) que até as famílias dos primeiros analisandos do mestre se opunham a ele com uma veemência poucas vezes experimentada em relação a outras novidades de seu tempo. O hoje célebre sonho da injeção de Irma (para variar, mais uma paciente cuja família negava crédito ao tratamento freudiano) e que se coloca como análise de um sonho modelo logo no início de A Interpretação dos Sonhos, acabou se beneficiando desta e de outras oposições. Através delas, neste que é o primeiro sonho do próprio Freud submetido a minuciosa reflexão, o criador da psicanálise tem a oportunidade de reafirmar a verdade primeira sobre a natureza onírica, pela qual se bateria toda a vida - sonhos são a realização de desejos, por mais escamoteados pela censura e pela distorção - outras duas categorias estabelecidas em seus estudos -, com que possam se apresentar. Depois de detalhar o sonho e a análise de suas construções e simulacros, em páginas e páginas do livro, Freud conclui que o sonho representou um estado de coisas específico, tal como eu desejaria que fosse. Assim, seu conteúdo foi a realização de um desejo, e seu motivo foi um desejo. O desejo de curar Irma e o de se vingar do seu colega Otto Rank (outro personagem do sonho) que na noite anterior havia insinuado a Freud que o sucesso da terapia aplicada à paciente tinha sido apenas parcial.
De todas as obras de Sigmund Freud, A Interpretação dos Sonhos foi aquela em que o mestre melhor se empenhou em adicionar novas reflexões, com o acréscimo, ao longo de toda a vida, de inúmeras notas de rodapé ou mesmo parágrafos inteiros que, a cada edição, até sua morte, em 1939, foram enriquecendo substancialmente o livro. Curiosa também é a sua carreira internacional - chama a atenção que a primeira língua, depois do alemão original, e do russo (em 1913), em que foi vertido, seja o espanhol, vindo a público em 1922, o que esclarece a proeminência, desde sempre, dos estudos psicanalíticos neste idioma tão próximo do nosso. Vertido para o sueco em 1927 e, pasmem!, para o japonês, já em 1930, a tradução húngara que se esperava uma das primeiras (anunciada desde 1918 pelo discípulo e amigo Ferenczi) só aconteceu em 1934. Para se ter uma idéia da indigência de nossa língua em relação a Freud, basta dizer que a primeira tradução brasileira de A Interpretação..., com o rigor que um texto desta natureza impõe, é bem recente - de 1967, por um dos pioneiros da psicanálise no Brasil, o pernambucano Walderedo Ismael de Oliveira, para a editora Imago, que acabara de contratar os direitos de Freud para o português.
Nossos sonhos. Do absurdo pré-freudiano em que os especialistas os desconsideravam como material psíquico, atribuindo-lhe a existência a estímulos somáticos provenientes da fisiologia do corpo, ao sonho inserido no campo simbólico feito sentido e linguagem, verazes escrituras da alma, passou-se um século. E como previu o próprio Dr. Sigmund, continuarão, por todos os tempos, a se apresentarem, as nossas representações oníricas, na qualidade de renovados enigmas, não mais de incurável mistério, mas - após Die Traumdeutung - das amplas possibilidades de decifração do espírito humano. Não é pouca coisa para um livro, mesmo para este - sem dúvida, um dos mais sublimes de nossa época.





