A inspiração para criar e as respostas para questões mais convencionais de lógica podem chegar com os sonhos. Como assinalou Freud, o sonho funciona como a estrada real para o inconsciente. O tema sempre aparece na literatura especializada, revisitado de várias formas. No livro ''Tudo Começou Com Um Sonho'' (Ediouro), a psicóloga americana Deidre Barret, professora em Harvard (Boston), reúne exemplos históricos e modernos, sobre como os sonhos têm contribuído para a invenção e a arte.
Ela enumera vários relatos de famosos e figuras importantes para a ciência que encontraram nos sonhos revelações para seus trabalhos. O sonho aparece como elo comum entre Salvador Dali, Federico Fellini, Mary Shelley, Paul MacCartney, Otto Loewi, Gandhi, entre outros.
Os sonhos deram sustentação às mais variadas experiências, como os avanços científicos premiados com o Nobel, músicas (desde obras-primas clássicas ao pop contemporâneo), projetos arquitetônicos, incontáveis romances e pinturas. O poder do sonho está no fato de ele ser uma maneira de pensar totalmente diferente, que completa e enriquece o que já fizemos quando despertos. Os exemplos reunidos por Daidre Barret ilustram de que forma os sonhos podem ser usados de maneira criativa, desde que prestemos atenção neles.
Um dos estudos científicos relatados no livro foi realizado nos Estados Unidos. O Instituo Sundance de Cinema entrevistou 108 participantes questionando se os sonhos são utilizados em seus trabalhos. A maioria dos escritores, diretores e atores disse que sim.
Carl Jung recorreu à arte para explicar a função do ato de sonhar: ''um sonho é um teatro no qual o sonhador é, ele próprio, a cena, o ator, o autor, o produtor, o público e a crítica''.
Leia a seguir, histórias de pessoas que se beneficiaram criativamente do que viram durante o sono.

Salvador Dalí, papa do surrealismo, se aproveitou ao máximo de sua vida inconsciente. Dalí desenvolveu uma técnica (cochilar com uma chave) para ‘‘capturar’’ imagens hipnóticas do início do sonho. Ele ensinava aos principiantes a sentar numa poltrona confortável e segurar com a mão esquerda uma chave pesada, mantendo-a suspensa. Embaixo da mão levantada, ele sugeria que a pessoa deixasse um prato virado para baixo. Daí era só dormir e sonhar. No momento em que a chave caísse sobre o prato, as pessoas acordavam com o barulho e lembravam das imagens, muitas vezes surrealistas.
  Luis Buñuel e Salvador Dali criaram um clássico da cinematografia mundial em 1929. ‘‘Uma nuvem grande e comprida cortava a lua pela metade, como uma gilete cortando um olho’’, eis o sonho de Buñuel. ‘‘Sonhei com uma mão rastejando, cheia de formigas’’, disse Dalí. Da junção desses dois sonhos nasceu ‘‘Um Cão Andaluz’’.
  Akira Kurosawa, cineasta japonês, disse numa entrevista que ‘‘o homem é um gênio quando está sonhando’’. Um dos poucos filmes concebidos inteiramente pelo poder criativo dos sonhos chama-se ‘‘Sonhos’’. Esse filme consiste de oito seqüências e cada uma reproduz exatamente um sonho do diretor, começando com alguns que ele teve quando criança.
  Mary Shelley, autora da mais clássica história de terror de todos os tempos – Frankestein – sonhou numa noite de tempestade com esse emblemático personagem. ‘‘Eu vi o pálido, estudante de artes profanas, se ajoelhando aos pés de uma coisa, uma criatura estranha que ele tinha juntado. Então vi que era o fantasma hediondo de um homem, e que ele estendia a mão, como se estivesse sob a poderosa força de um mecanismo, mostrando sinais de vida, e que se movia inquieto, com apenas metade dos movimentos vitais...’’, relatou Mary Shelley.
  Paul McCartney, o beatle, diz que a melodia de ‘‘Yesterday’’, gravada por mais de 2 mil artistas, veio em sonho em maio de 1965, quando já era terrivelmente famoso. Enquanto estavam gravando ‘‘Help’’, em sonho ele escutou um clássico conjunto de cordas tocando. ‘‘Acordei com uma música linda na cabeça. Havia um piano de armário perto de mim, à direita de minha cama. Todo o caminho pelo teclado me pareceu lógico. Eu não acreditava que fosse minha, que eu a tinha composto. Eu costumava chamá-la de ‘Scrambled Egg’’ (ovos mexidos). Acho que ‘Yesterday’’ é a música mais completa que já escrevi na vida.’’.
  Elias Howe começou a desenhar o protótipo da máquina de costura. O norte-americano não conseguia achar uma forma de fazer com que a máquina sustentasse a agulha sem interferir na passagem pelo tecido. Howe sonhou que estava sendo capturado por selvagens, que usavam pintura de guerra e que o ameaçaram de morte se ele não terminasse a máquina imediatamente. Os guerreiros usavam perto das pontas das lanças buracos no formato de olhos. Foi aí que ele desvendou o segredo que era necessário uma agulha com um ‘‘olho’’ próximo à ponta. Na manhã seguinte, ele saiu da cama, fez um modelo esculpido em madeira da agulha com o ‘‘olho’’ na ponta. Estava inventada a máquina de costura como a conhecemos hoje.

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