Absolutamente diluída por um mercadejar adivinhatório que é bem a cara de nosso tempo, a Astrologia, senhores, é bem mais do que vos prevê para hoje o horoscopista da página de variedades. Não digo, com isso, que dela eu lhe detenha o saber ou que ande agora às voltas com os Astros feito novo místico de meia tigela, dos que pululam por aí, mediocrões astutos do final do milênio.
Não, não me compreenda mal, paciente leitor, sou apenas o contador de lorotas líricas com que a semana se inicia cá nesta folha de jornal. E, desse modo, tudo ouso - da observação meticulosa do vôo dos pardais que me infestam o quintal baldio à poesia que, por exemplo, mora nos astros do céu.
Renovo: não sou especialista na matéria mas, parece, um dos golpes recorrentes contra a Astrologia tem sido a descoberta de novos planetas pela Astronomia, essa outra ciência nem sempre exata, incapaz de medir a profundidade (se existe) dos ‘‘buracos negros’’ ou ascultar o coração de um quasar que, sabemos com pânica certeza, existe.
Se assim, saio em defesa mesmo do astrólogo de menor recurso e que vende na esquina a previsão bem vã de um dia - não importa se novos planetas somem-se aos já descobertos ou que outros ainda venham a ser descobertos no futuro - a Astrologia é um saber simbólico e como tal deve ser entendida. Um planeta oculto, por tais e tantos milhões de anos, penso, antes intensifica do que desacelera a ‘‘reverberação’’ do símbolo, digamos assim. E não há porque o astrólogo de plantão recolha, tímido, vossa sorte, no bico do periquito, só porque incapaz de decifrar o que entre Marte e Plutão.
A crer nas escrituras astrológicas, este vosso croniqueiro, por exemplo, é de Peixes, o que não anula o seu contrário, Virgo, mesmo porque tendo a Lua centrada neste último, sou, de certo modo todo particular e íntimo, um virginiano meticuloso e adicto do rigor como um viciado em heroína. O horoscopista da esquina por certo não entenderia como é que um pisciano do terceiro decanato se mostre assim amante da minúcia e do enfado, como armas precisas contra a desarrumação e o engodo.
Mesmo sabendo que pratico um atentado contra o dogma tacanho do horoscopista da esquina, acho que sou, ao longo de um dia, mais, muito mais que os doze signos misturados - pela manhã pode que eu acorde libriano e logo me renove em Áries para no instante seguinte me ver convertido numa estranha espécie aquariana de um xiitismo capaz de sonhar e acreditar no sonho como a suprema verdade da hora. Há dias, inclusive, que não sobra tempo sequer para que eu seja pisciano, o meu chamado ‘‘signus solis’’ que é, em bom português, o ‘‘signo solar’’, aquele sob o qual nascemos.
Quem quer aí empunhar o arco teso da esperança com que Sagitários se esforçam? Ou se ver no exato desenho de Capricórnio que, na mitologia greco-romana, é representado pela formosa cabra Amaltéia, a qual, pasmem!, amamentou Júpiter e, como prêmio, foi colocada entre os astros com os seus dois cabritos? E quem, ainda, compulsivo o bastante, para se increver no oitavo signo do Zodíaco, Scorpius, que por ordem da deusa Diana picou, intenso de ódio e crime, o calcanhar do orgulhoso Órion?
Só o céu que nos protege consegue ser mais velho que estas fábulas entranhadas no inconsciente coletivo feito uma herança ancestral, a nos dizer, por exemplo, que Taurus é o animal em que Júpiter se metamorfoseou para raptar Europa ou que Câncer foi o bicho que Juno arremeteu contra Hércules no combate com a terrível hidra de Lerna e que, cruel destino, pisado por Hércules como um verme, teve de Juno a recompensa de se tornar o terceiro signo do Zodíaco.
Ainda assim, não esquecemos, Câncer picou o quase-divino Hércules, arranjando-lhe uma ferida nos pés que demorou muito a cicatrizar. E a cada vez que ela, a ferida, lhe dificultava os passos, nosso herói maldizia o pequeno animal. Talvez seja por este viés que muitos astrólogos expliquem o temperamento frequentemente regressivo dos cancerianos. O que, também não esquecemos, é a tolice mais tola: inventivos e recalcitrantes, obsessivos e amorosos, são os nascidos sob o signo de Câncer pessoas devotadas à vida com um ímpeto que às vezes não encontramos sequer em Leão.
É por essas e outras, crédulo leitor, que amanheci hoje mais aquariano que Ganimedes - o disfarce arranjado por Júpiter para colocar Aquarius no céu. Isto se desconhecermos que ele, Aquarius/Ganimedes, é mesmo Aristeu, filho de Apolo e de Cirene, pai de Actéon, devorado pelos seus cães.
Mas esta já é outra ( longa ) história de amor e desassossego.

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