Reprodução‘‘A Queda do Homem’’, de Hugo van der Goes (1470)A curiosidade é um poderoso cavalo galopando pela história, arrastando em sua sela a conturbada humanidade. Pode atravessar territórios do bem e territórios do mal. Pode tocar o conhecimento libertador e o conhecimento proibido. Aquele que liberta e aquele que limita.
Um bom exemplo está no mito judaico-cristão dos primeiros homens do mundo, Adão e Eva. Ao colocar no meio do paraíso a ‘‘árvore do conhecimento do bem e do mal’’ e deixando expressa a proibição de provar seus frutos, Deus, conhecendo a natureza de sua criação, já escrevia o destino de Adão e Eva: ‘‘O que nos for proibido é o que desejamos’’.
Partindo do princípio de que sempre existiu um conhecimento que a humanidade é impedida de tocar - e por isso mesmo sempre procura tocá-lo - o filósofo e literato norte-americano Roger Shattuck resolveu mapear ensaísticamente este conhecimento dentro da história da literatura ocidental. O resultado do trabalho está no livro ‘‘Conhecimento Proibido’’, recém-lançado pela Editora Companhia das Letras.
Roger Shattuck estabelece seis categorias de conhecimento proibido: conhecimento inacessível, inatingível; conhecimento proibido por autoridade divina, religiosa, moral ou secular; conhecimento perigoso, destruidor ou indesejável; conhecimento frágil, delicado; conhecimento dúplice; conhecimento ambíguo. Essas categorias não estariam totalmente isoladas, mas estariam, de acordo com o contexto, sobrepostas umas às outras.
A leitura da noção de conhecimento proibido de Shattuck passa por Prometeu e Pandora na mitologia grega, Adão e Eva e outras passagens da Bíblia, ‘‘Divina Comédia’’ de Dante, ‘‘Paraíso Perdido’’ de Milton, ‘‘Fausto’’ de Goethe, ‘‘Frankenstein’’ de Shelley, Emily Dickinson, Melville, Camus e uma infinidade de outras obras, escritores e poetas.
Num de seus enfoques, Shattuck aborda o conhecimento proibido no âmbito das ciências, em especial a física e a genética. Considera alguns incidentes da história da ciência e o desafio que apresentam às restrições latentes na noção de conhecimento proibido. A fabricação da bomba atômica e as implicações do Projeto Genoma na recombinação do DNA são analisados. Também aborda o vasto problema do mal alojado na natureza humana. Mal este que, quando libertado, está sempre pronto a retomar o controle das ações dos homens. Neste ponto o objeto de análise é a controvertida vida e obra de Marquês de Sade e sua reabilitação no século 20.
Professor de literatura da Universidade de Boston, Roger Shattuck possui a capacidade intelectual de estabelecer relações e conexões entre obras literárias que aparentemente são estranhas entre si. O texto de ‘‘Conhecimento Proibido’’ revela uma coerência da primeira à ultima linha mesmo atravessando as praias mais distantes e distintas. Assumindo o controle sobre as idéias que aborda, o autor não se desvia de seu objetivo. Pode até renomear conceitos já nomeados, mas não abre mão do entendimento mais profundo da sedução do proibido.
• Conhecimento Proibido - de Roger Shattuck, Editora Companhia das Letras, tradução de S. Duarte, 374 páginas, R$ 31,00.

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