Os sabores e cores de Belém
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de agosto de 1998
Agência Estado 
ReproduçãoEspetáculoBarcos de todos os tipos atracam no Ver-o-Peso: considerado o maior mercado livre da América Latina ali é possível encontrar de tudoQuem vem a Belém parou; tomou açaí, ficou, diz o mais antigo ditado da capital do Pará. É verdade que a cidade pode ser conhecida pelos muitos sabores dos doces, sucos e sorvetes de suas frutas típicas, como bacuri, cupuaçu, açaí... Mas não é só. O visitante ainda vai se deliciar com pato no tucupi, pirarucu no tacacá, maniçoba, arroz de jambu, caruru e com a inigualável pimenta de cheiro. Impossível explicar, melhor experimentar. Nas ruas de Belém, até os orelhões (cuias estilizadas de tacacá) incitam o paladar.
Chamada de porta de entrada da Amazônia, Belém tem consciência de suas belezas naturais. No meio da cidade, dois parques ostentam a exuberância das madeiras da região enquanto os turistas, a maioria estrangeiros, se lançam em barcos pelo Rio Guamá à procura do significado dos igarapés, do canto dos papagaios e da cor de jambo da população ribeirinha.
Mas não há nada mais Belém que o Ver-o-Peso, considerado o maior mercado livre da América Latina. Todo art nouveau, com estruturas de ferro importadas da França, ali é possível encontrar de tudo: de vulva de bota a pênis de boi, passando por cara de coruja, pata de galinha, chifre de veado, pele de cobra e por aí vai esse zoológico mórbido.
Outra atração do mercado são os preparados milagrosos, engarrafados caseiros que resolvem - palavra das vendedoras - todos os males. Exemplos: Para revigorar, catuaba; batidas e escoriações, andiroba; problemas do peito, leite de susucuba; quebraduras, bainha de macaco; fraqueza e impotência, marapuana. Se a questão é atrair homem, algumas doses de preparado de bota pode ser a solução. Já o de olho de boi é indicado para chamar prosperidade. Para cada tipo de aflição, física ou espiritual, sempre haverá uma receita.
O grande espetáculo do Mercado, porém, ocorre logo cedo, às 5 horas, quando os barcos carregados de açaí atracam no cais. Os peixes, milhares, de todos os tipos, tamanhos, cores e sabores, começam a chegar ainda à noite, a partir das 23 horas.
Para quem vai ao Ver-o-Peso, uma dica: lá, tudo se barganha. De palha de guarumã à cerâmica marajoara, nada de comprar na primeira barraca. Sair andando pelo Mercado é, além de econômico, muito divertido. O importante é não sair de mãos vazias. Se isso ocorrer, a feira da Praça da República, realizada nos fins de semana, vai atrair o seu dinheiro. Se ainda assim resistir, as lojas de artesanato da Avenida Presidente Vargas vão fazer você pôr a mão no bolso para comprar algum boneco de balata ou um pequeno cesto de palha. Os mais exigentes podem pegar um barco para a Ilha de Marajó, para trazer de lá um completíssimo aparelho de jantar de autêntica cerâmica marajoara.
Mas nem tudo é comer e comprar. Paquerar também faz bem e a Praça Batista Campos é o ponto de encontro da moçada nos fins de tarde. De lá, o pessoal sai para algum restaurante, como o agradável Lá em Casa, que de tão bom faz parte da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança. Para se ter uma idéia da qualidade desse lugar, basta dizer que o Fasano, o Le Casserole, o La Vecchia Cucina e o Roanne são os associados paulistas.
Uma dica boa para fazer a digestão é ir requebrar as cadeiras. Olê Olá e Sabor da Terra são locais indicados para dançar o carimbó (ritmo paraense), assim como a famosa Lapinha, um prostíbulo que já teve seus dias de glória 20 anos atrás e hoje recebe madames de fino trato. Virou família.
Mas o que há de verdadeiramente sagrado e tradicional em Belém, além de igrejas maravilhosas espalhadas por toda a cidade, é a procissão do Círio de Nazaré, realizada no segundo fim de semana de outubro, reunindo mais de um milhão de pessoas, faça chuva ou faça sol. Aliás, em Belém a chuva era tão rotineira antes do El Ni¤o que o pessoal da cidade costumava marcar encontros antes ou depois da chuva, que até então marcava presença sempre por volta das 14 horas. No verão, segundo um dito popular, chove todos os dias; no inverno, para variar, chove o dia todo.


