Dizem que Luciana Gimenez não vai para a cama sem ele. Ele, no caso, é o livro ‘‘Os Rolling Stones no Brasil – do Descobrimento à Conquista (1968-1999)’’, que editora Ampersand acaba de lançar no país.
O livro, de autoria de Nélio Rodrigues, traz um relato minucioso de cada uma das visitas que os Stones – em conjunto ou sozinhos – fizeram aos trópicos nas últimas três décadas. Vai da primeira viagem de Mick Jagger ao Rio de Janeiro em 1968 até a passagem da turnê ‘‘Bridges To Baylon’’ em abril de 1998.
No final, reconstitui o romance do vocalista com a modelo brasileira e hoje apresentadora de tevê Luciana Gimenez com quem teve um filho. Para quem aprecia curiosidades de anedotário, o cardápio é farto. Tudo o que se sabia vagamente, ou se havia perdido em algum arquivo empoeirado de jornal, é contado em detalhes nas 200 e poucas páginas do volume.
Entre os episódios narrados constam a discriminação sofrida por Mick num reduto de intelectuais cariocas, uma excursão que colocou o Maracanãzinho e o Anhembi na rota da banda, a criação de uma das canções de maior sucesso da dupla Jagger & Richards numa fazenda no interior de São Paulo, a boa vida de Ron Wood no litoral de Pernambuco e uma composição gravada por Mick com músicos brasileiros que nunca foi lançada.
Os fatos são intercalados com fotos (algumas raras e cedidas por colecionadores particulares) e quadros cronológicos da trajetória da banda. O volume inclui ainda a discografia brasileira dos Stones, o repertório de cada um dos shows brasileiros, a relação das diferentes músicas apresentadas pela banda em seus espetáculos no Rio e em São Paulo, além de bibliografia e informações sobre os programas especiais exclusivos para as TVs locais e as entrevistas coletivas concedidas no país.
Para levantar e cruzar as informações, o autor vasculhou jornais, revistas, biografias e toda a sorte de livros sobre a banda publicados no exterior contendo referências ao Brasil. E, claro, entrevistou pessoas que tiveram contatos com os músicos durante as várias idas e vindas. A primeira visita ocorreu em janeiro de 1968, quando Mick Jagger desembarcou no Rio de Janeiro acompanhado de Marianne Faithfull e do filho dela Nicholas.
O escritor Fernando Sabino foi um dos cicerones do rockstar. Depois de alguns dias na orla carioca, foram para Salvador, onde teriam sido hostilizados numa festa de lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim, a mais tradicional da Bahia. A cerimônia, entretanto, teria inspirado Jagger a compor ‘‘Sympathy For The Devil’’, música que abre o disco ‘‘Beggar’s Banquet’’, lançado em dezembro de 1968.
Não por acaso, sete anos depois, os Stones convidaram alguns artistas brasileiros – entre eles, Gilberto Gil e Moacyr Santos – para acompanharem a banda na execução daquela canção durante um show em Los Angeles. Jagger voltaria com Marianne ao país no final de 68, desta vez acompanhado por Keith Richards, a mulher deste, Anita Pallemberg e o filho deles, Nicholas.
Na época, foram ostensivamente assediados pela imprensa, a ponto de decidirem descansar numa fazenda do banqueiro Walter Moreira Salles na cidade de Matão, no interior paulista. Ali, teriam composto ‘‘Honky Tonk Women’’, um dos maiores sucessos dos Stones e a primeira gravação com o novo guitarrista Mick Taylor, o substituto de Brian Jones, que havia saído da banda pouco antes de ser encontrado morto, afogado na piscina de sua casa.
Mick Taylor também viria conhecer o país numa passagem que renderia desentendimentos com um casal de amigos brasileiros – o baixista carioca Arnaldo Brandão e sua ex-mulher Cláudia – o qual até então hospedara em sua mansão na Inglaterra. Taylor, que deixou os Stones em 1974, retornaria mais duas vezes ao Brasil. Jagger também repetiria a viagem em 1975, já com sua nova mulher Bianca.
Dessa vez, segundo o autor, o vocalista circulou pela alta sociedade carioca frequentando almoços, jantares, reuniões e festas. Mas entre os compromissos, cavou espaço para agendar uma sessão de gravação com músicos brasileiros, muitos deles percussionistas. A idéia inicial era gravar duas músicas, mas só houve tempo para completar uma delas, que recebeu o nome de ‘‘Scarlet’’.
Logo depois, circularam boatos de que a composição poderia entrar num futuro disco dos Stones, o que não se confirmou. ‘‘O que Jagger queria mesmo era gravar um samba autêntico e, ao que tudo indica, o resultado final da gravação não ficou exatamente como ele pretendia. Apesar de ter se impressionado com a habilidade do baixista Dadi, o fato é que, até hoje, essa gravação permanece inédita’’ – conta Nélio Rodrigues.
Ao contrário das viagens de férias anteriores, a terceira visita de Mick Jagger foi a trabalho. Agora com outra mulher, a modelo Jerry Hall, ele desembarcaria em 1984 para gravar um vídeo com direção de Julien Temple e que contaria com diversas participações: Dennis Hopper, Rae Dawn Chong (atriz sino-americana), Tarita (modelo brasileira radicada na França), Grande Otelo, Paulo César Pereio, Raul Gazolla, Ritchie e Norma Bengell.
Mas o que fora anunciado como um vídeo promocional de seu álbum-solo ‘‘She’s The Boss’’, resultou num longa-metragem de 90 minutos que destacavam nove faixas do disco. O autor revela como a atriz Norma Bengell reagiu ao sentir-se lesada: ‘‘Quando ela soube que, ao invés, de ter participado de um longo videoclipe, como lhe disseram, tinha atuado em um longa-metragem, reclamou que não tinha recebido um cachê correspondente’’.
O livro aborda também uma turnê abortada dos Stones no Brasil, a fracassada excursão do baterista Charlie Watts com sua banda de jazz, as três visitas de Ron Wood e também um disco lançado pelo baixista Bill Wyman (o único Rolling Stone, com exceção de Brian Jones, que não visitou o Brasil) trazendo uma música em homenagem ao Rio de Janeiro.
O relato culmina com a triunfante passagem da turnê ‘‘Voodoo Lounge’’ por São Paulo e Rio, em 1995, no primeiro encontro do público brasileiro com a banda inglesa. ‘‘A imagem de um fã, que se ajoelhou em meio à platéia, extasiado, quando os Rolling Stones encheram o Pacaembu com os acordes iniciais de ‘Satisfaction’, o hino de uma geração inteira, foi o emocionante ponto final de uma longa e angustiante espera que já se estendia por pouco mais de três décadas’’ – escreve ele.
Os shows são descritos em detalhes. Três anos depois, os Stones estavam de volta com a turnê ‘‘Bridges To Babylon’’. Foi nesta segunda excursão da banda que Mick Jagger conheceu Luciana Gimenez, durante uma festa no Rio de Janeiro organizada na mansão do empresário Olavo Monteiro de Carvalho e Andréa Dellal. O autor conta que na ocasião Mick azarou muitas mulheres, dançou, posou para fotos e levou um fora da cantora Simone Moreno (mulher do guitarrista Pepeu Gomes).
Teve sorte com Luciana Gimenez, com quem conversou animadamente esquecendo-se da festa. ‘‘Se o longo tête-à-tête de Mick e Luciana despertou curiosidade entre os convidados’’ – escreve o autor – ‘‘mais surpresos eles ficaram quando notaram o sumiço simultâneo de ambos. Meia hora depois, o mistério se desfez quando foram vistos voltando juntos pelos jardins da residência’’.
Aos fãs que achavam que tudo já havia sido escrito sobre a banda, vai ser uma surpresa mergulhar nessas páginas.
‘‘Os Rolling Stones no Brasil – da descoberta à conquista (1968-1999)’’. Autor: Nélio Rodrigues. Preço: R$ 75,00. Editora Ampersand. Tel. (21) 3419-5624. www.ampersand.com.br

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