Curitiba

Albari RosaEquipe da família Queirolo que estará animando os domingos no Estação Plaza ShowO circo modifica-se com o passar do tempo, mas a essência que ele injeta em seus seguidores permanece para sempre. Há mais de um século surgia na Europa o Grupo dos Irmãos Queirolo, que iria crescer e ganhar mundo. Os herdeiros do sobrenome e do gosto pela arte circense mantêm a chama - hoje eles estarão no Estação Plaza Show, participando da inauguração do maior complexo de diversões e lazer do Brasil.
O contrato firmado com o Estação é por um período de seis meses - aos domingos eles apresentarão shows-relâmpago de 40 minutos, procurando diversificar as atrações. A renovação faz parte do espetáculo, ensinam os Queirolo.
Por força da história e dos reveses do destino, eles sabem exatamente o que é renovação. Em 1968 um vendaval pôs abaixo o Circo Irmãos Queirolo, levando junto o próprio nome da companhia. Um dos irmãos, Lafayette (Chic-Chic Jr.), ergueu uma nova lona com seu nome, o Circo Chic-Chic. Passados 12 anos, quando voltavam de uma temporada no interior, um acidente na estrada destruiu mais uma vez o empreendimento.
Nem mastros, lonas, letreiros. De 1980 para cá a família vem trabalhando com ‘‘assuntos circenses’’. Eles fabricam bonecos sob encomenda, numa oficina mantida na casa de Lafayette, no bairro Boa Vista. O pai ainda é muito presente na lembrança dos filhos e netos, como se estivesse por ali dando coordenadas.
A oficina serve como sede central dos artistas, que atendem a convites de lojas, prefeituras, feiras e exposições. Apresentam-se ao ar livre, ginásios de esportes, rodeios. Tudo é válido para eles: palhaços, malabaristas, equilibristas, mágico, comedor de fogo, trapezistas.
O falecimento de Lafayette em maio de 1996 gerou uma onda de boatos que os Queirolo tinham encerrado para sempre as atividades artísticas. Mesmo sem fundamento ainda assim a notícia promoveu estragos - os convites para apresentações despencaram e a família se viu em situação difícil.
A luz no fim do túnel apareceu agora, e a situação tende a mudar para melhor. Mesmo nos momentos ruins jamais houve negação dos herdeiros - as crianças, inclusive, têm o circo como um direcionamento no futuro. Felipe, de 9 anos, quer ser mágico. Marco Aurélio, de 12, já pinta o rosto: será palhaço.
GafanhotoO veterano da trupe é o palhaço Gafanhoto, ou Henricredo Coelho, de 71 anos de idade. Começou na carreira aos cinco anos, numa época em que a lona e o picadeiro exerciam um encanto ainda maior junto ao público. A inocência e o romantismo de uma era estão enterrados para sempre. ‘‘A televisão matou o circo’’, lamenta.
Sua história é típica de todos aqueles que contam o início do namoro com a arte. O pai - casado com uma francesa - era eletricista e estava assistindo a uma sessão do Circo dos Irmãos Queirolo, quando houve um problema na fiação elétrica. O técnico da Light predispôs-se a resolver a situação e começa aí o envolvimento da família Coelho. A mãe tornou-se estilista da companhia e o filho jamais deixou o grupo. Na mocidade foi acrobata, e atração do Cassino da Urca, em seus melhores dias.
Há meio século o circo dos Queirolo tinha camarotes, era ornado de veludo. Os porteiros postavam-se garbosos com indumentárias criadas especialmente para eles, guarnecidas com botões folheados a ouro. O luxo não existe mais, as ambições são outras, mas ainda assim os sonhos continuam sendo muito próximos. Mari, uma das filhas de Lafayette, formada em pedagogia, diz que seu maior sonho é abrir um jardim de infância com o nome de Chic-Chic.
Sua irmã, Lígia, afirma que a maior lição que todos receberam foi a da retidão: ‘‘Famílias circenses antigas, como a nossa, têm moral muito forte’’. Seguindo o exemplo dos pais, que se fixaram em Curitiba para que os filhos estudassem, também eles mantém os mais jovens na escola, apesar dos protestos da garotada.
Luiz, o mágico, conta da alegria da família. Um dos desejos do pai finalmente foi alcançado - a criação oficial da Cia. Irmãos Queirolo, que para Lafayette tinha o peso de um título de nobreza. Outra boa nova, depois de meses de amargor, é de que uma praça da cidade levará o nome do pai. Já o sobrenome Queirolo tem o dom de ser quase uma marca a direcionar os destinos: ‘‘Se depender de nós, o circo não vai acabar nunca’’, diz Mari, confirmando as impressões.

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