OS 'PROJETOS DE MAIO' TÊM VIDA APÓS O FILO?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
Questionada sobre o trabalho com comunidades de excluídos, a organização do Festival Internacional de Londrina explica que a manutenção das propostas depende do fôlego dos envolvidos e da costura com outros órgãos de apoio
No ano passado, o Festival Internacional de Londrina (Filo) inaugurou um novo formato que destacava outra faceta do evento: projetos de inclusão social realizados com a comunidade. Em 2000, foram iniciados mais de 20 Projetos de Maio em várias áreas, do teatro à gastronomia. Este ano, dos 14 projetos previstos, oito são continuidade do processo anterior. O Filo também inaugurou parcerias com secretarias municipais, grupos, instituições e entidades da comunidade. Vem trabalhando com menores de rua, deficientes visuais e auditivos, detentos, idosos e comunidades carentes. As propostas são importantes formas de entrosamento, entretanto, requerem uma base para continuar existindo. Esse é assunto enfocado pela Folha2 em entrevista com a diretora do Filo, Nitis Jacon, e a coordenadora do evento, Maria Fernanda Coelho.
No ano passado, o Filo inovou ao incluir em sua programação projetos com comunidades de excluídos. Neste ano, o festival repete a fórmula. Mas qual o alcance dessa proposta fora do evento?
Nitis Jacon - O ideal seria esses projetos tornarem-se independentes. O festival é uma espécie de porto seguro, que dá um apoio estratégico. Mesmo porque o Filo não tem pernas para tudo. Acompanhamos até certo ponto. Mas à medida em que os grupos quiserem se reintegrar ao Filo, vamos recolocá-los.
A continuidade é visível em alguns casos, como o do núcleo de assentados do Movimento dos Sem-Terra, que é considerado uma comunidade organizada. Mas o que ocorre quando a comunidade não tem estrutura para tocar o projeto?
Maria Fernanda Coelho - No projeto do mocó do Zerão (oficina com menores que vivem nas ruas), a gente fez uma primeira abordagem, um tanto cautelosa. De um grupo de 12 adolescentes, tivemos o resultado ativo de apenas uma menor. Para esse primeiro contato foi uma superconquista. A maioria dos outros meninos pediram reencaminhamento para as casas-abrigo, exceto dois deles, que permanecem nas ruas. Isso não indica que os que estão no abrigo não voltarão mais para as ruas. Mas nos mantemos em contato com todos eles e estamos convidando-os para assistir a espetáculos do festival. É uma referência que eles não tinham. Agora já existe uma comunicação. Não vamos virar as costas para eles.
Nitis - Vamos planejar ações dentro de critérios adequados para esse grupos. Temos monitores que acompanharam o processo e vão continuar o contato, estudando uma aproximação. É bom que o festival esteja presente.
Muitas vezes, esses projetos caem como doce nas mãos de uma criança. Tirá-lo pode ser um processo difícil. O Filo abandonou algum dos processos?
Nitis - Podemos trabalhar com comunidades que não se sintam bem com o processo. Não vamos forçar ou fazer apenas assistencialismo. Não queremos essa idéia de toma lá, dá cá. Temos que seguir esse conceito de cultura, de levar, preparar... Também podemos parar com um projeto até porque não temos condições de responder a tudo. Dos projetos do ano passado, oito tiveram continuidade. Alguns não tinham mesmo a intenção de seguir o processo, entra como uma espécie de evento.
É essa a palavra: evento. Algum desses projetos pode ser visto apenas como uma performance do Filo?
Nitis - Na verdade, é mais que um evento. O projeto dá um tempo que em si é suficiente, dentro do festival. Não abandonamos as idéias, queremos dar continuidade. Mas a maioria dos projetos são a longo prazo e nem todos eles tem essa semente.
A Penitenciária Estadual é outro núcleo que iniciou um projeto no ano passado e agora retomou o processo. Como fica a relação com essa comunidade, que é fechada?
Maria Fernanda - O (Roberto) Lage veio dar continuidade ao processo iniciado pelos Parlapatões, Patifes e Paspalhões (grupo de São Paulo), que deixaram uma rotina de trabalho para os internos. Só que a rotatividade na PEL é grande. Do projeto anterior, apenas três estão no trabalho desse ano. Mas eles deram continuidade. Agora, Lage está ensinando aos internos a marcenaria, a forma de levantar um espetáculo. Ele tem um monitor que, mesmo não morando dentro da cadeia, vai poder coordenar e reciclar o trabalho do grupo depois.
O que aconteceu com a Oficina de Moda com as mulheres do União da Vitória, iniciada em 2000 pelo Filo, mas que não está entre os Projetos de Maio deste ano?
Nitis - Esse projeto da Associação de Mulheres A União Faz a Força teve um start com a Coopa Roca (Cooperativa de Artesãs e Costureiras da Rocinha, no Rio de Janeiro), em parceria com o curso de Estilismo e Moda da UEL, que deu acompanhamento posterior ao projeto. Hoje elas tocam o processo normalmente. O festival acompanha o desenvolvimento desse trabalho. Se elas sentirem falta, vamos apoiar novamente fazendo cursos ou trazendo pessoas para trabalhar com elas.
Mas por que não estão no Filo para mostrar seu trabalho?
Nitis - Elas não estão no festival porque não conversamos muito nesse período. O grupo está trabalhando harmonicamente com o curso de Estilismo. Talvez não tenham tido tempo de organizar algo para o festival.
O Filo está realizando vários projetos em parcerias com secretarias municipais, como a de mamulengos, a dos menores de rua... Existe algo concreto para ser desenvolvido depois, também em parceria?
Nitis - Apresentamos uma proposta à prefeitura, envolvendo algumas secretarias. Estamos tendo boa receptividade da Cultura, Educação e Ação Social. A idéia é dar continuidade junto com essas secretarias, usando nosso know-how e a estrutura que a prefeitura pode fornecer.


