Em comparação aos consolidados setores teatral e musical londrinense, emoldurados em Festivais e que possuem visibilidade e repercussão no País e exterior, a arte da dança ainda ensaia os primeiros passos. Foi um dos últimos redutos culturais a se profissionalizar. O nível de exigência do profissional – que precisa ultrapassar diariamente seus limites físicos – intimida o crescimento do setor. É preciso ter profissionais de ponta para sedimentar a formação de novos alunos.
Na busca de patrocínio, o balé inexiste como referência para os patrocinadores em potencial da cidade. Isso dificulta também a participação nos mais de 50 eventos anuais de dança no Brasil, fomentadores de crescimento. Pode-se agregar a esses fatores, a falta de uma política cultural em Londrina que insira a dança (o que inclui as escolas) na pauta de investimentos.
Dos conceituados nomes que circulavam na cidade há 20 anos – Adanac, Guaíra Norte, Pascual Benites (do Londrina Country Club), Ballon Ballet e Nella Hasner – apenas o Adanac permaneceu em cena. Verdadeiras grifes da dança clássica e moderna, essas escolas e academias se revezavam nos palcos do Cine-Teatro Ouro Verde, com montagens memoráveis de Coppélia e Giselle. O balé era uma passagem obrigatória para as meninas das famílias classe média da cidade, com escassas atividades extra-curriculares para complementar a formação.
Hoje, um número flutuante de escolas e academias na cidade, pouco mais de 20, tentam um lugar ao sol. Nos últimos três anos, surgiram novas facções, com propostas concretas, alunos, espetáculos e público. Dança do ventre e flamenco despontam entre os emergentes do movimento. Se as opções se multiplicaram para quem deseja se iniciar na dança, o público também se diversificou e cresceu.
A sinalização desse impulso do numérico pode-se ser constatada no evento ‘‘Tardes de Dança’’, no Circo Teatro Funcart, em que 10 a 12 grupos de Londrina e outras cidades permutam experiências e ampliam horizontes. São nove edições pulverizadas em 12 meses, muitas com o recinto completamente lotado. Durante esse ano, o espetáculo ‘‘Origens’’, da Cia. Renata Lobo de Dança do Ventre e Cia. Cristina Pedron de Dança Flamenca, foi o recordista de público no Cine-Teatro Ouro Verde, com lotação total de 897 lugares do teatro, mais 200 pessoas se acotovelando nos corredores.
‘Londrina é efervescente, formou vários tipos de público’’, assinala Yeda Marques Russo, do Centro de Dança e Artes Adanac. Sua clientela pouco mudou em 32 anos de existência da escola: classe média sem poder aquisitivo, mas com base cultural. Sem se recuperar do golpe do Plano Cruzado, em fevereiro de 1986, quando nos corredores do Adanac ouvia-se o burburinho de quase 700 alunos (!), hoje esse número resvala nos 250.
Yeda considera a fase atual como a melhor de sua companhia, avaliando a qualidade técnica das nove integrantes do corpo de baile. No entanto, há um mês foi dissolvido oficialmente o corpo de baile Adanac, fato que Yeda credita ao excesso de impostos.
A tradição no cenário da dança em Londrina abre espaço para histórias como a de Renata Kirita Doi, 25 anos, primeira bailarina do Adanac. Desde os cinco anos na escola, fez daquele espaço sua segunda casa. A perseverança consolidada em intermináveis calos foi recompensada com vários prêmios pelo Brasil. Pelo Conselho Brasileiro de Dança, no início desse ano, Renata Doi ganhou uma bolsa para Paris, pela segunda colocação no concurso nacional. Em Bento Gonçalves (RS), também nesse ano, foi indicada a uma bolsa no Chile. ‘‘Para ser bailarina é preciso sair fora do Brasil’’, afirma Renata, que faz da odontologia sua profissão e não pretende dançar em outro idioma.
Leonardo Ramos, diretor do Ballet de Londrina, observa que os grupos profissionais estão mais cautelosos, cuidadosos com a infra-estrutura das escolas (dotadas de piso de madeira e linóleo), como também nos arremates finais dos espetáculos. Na avaliação de Ramos, o bailarino londrinense possui uma formação razoável, com 8 anos de escola, no mínimo.
A partir da criação da Escola Municipal de Dança há 8 anos e da consolidação do Ballet de Londrina, a dança novamente começa a reverberar. A escola se fundamenta num projeto sócio-cultural de ponta, formando profissionais com aulas diárias e base educacional que abrange história da dança, terminologia, anatomia e educação sonora. Alunos que jamais teriam condições de fazer um plié (movimento de dobrar os joelhos) numa escola particular, obtêm a oportunidade de dançar, levando como abono um polimento na formação como cidadãos.
Para Leonardo, Londrina possui condições de produzir bom profissional, inclusive existem vários vivendo exclusivamente da dança, fazendo disso sua função social. ‘‘A dança surge como um meio de redenção para muitas pessoas’’, salienta. Ele cita o caso do bailarino Anderson Braz, 18 anos, que saiu da Escola Municipal de Dança para as ladeiras de Salvador, como solista do Ballet Castro Alves. Leonardo Ramos, a longo prazo, vislumbra a criação de uma identidade corporal para os bailarinos formados na Escola Municipal de Londrina.
Caminhando numa outra vertente, a Trup Estúdio de Dança apresenta um repertório eclético, transitando pelo clássico, flamenco, moderno e contemporâneo. ‘‘Às vezes, somos mais conhecidos lá fora do que em Londrina’’, desabafa a coreógrafa Nádia Essada. Em 10 anos de atividades, a Trup percebeu o crescimento do público, mas poderia ser maior. A companhia fez um trabalho de formação de público de 1995 a 1998, quando se apresentava em escolas públicas e particulares nos horários do recreio. O projeto se estendeu a empresas, quando a Trup mostrava trechos dos mais clássicos balés para operários, ávidos por conhecer o segredo das sapatilhas de ponta.
‘‘Nesse momento, a dança passa por uma evolução rápida, está mais arrojada’’, avalia Nádia Essada, se referindo sobre interação crescente entre teatro e dança. ‘‘O público londrinense percebeu o amadurecimento da dança que é feita aqui’’, pondera.
Do complexo vitamínico que os grupos londrinenses vêm se alimentando, vale lembrar as companhias conceituadas que aportaram por aqui, como Débora Colker (RJ) e Quasar (GO). No Festival Internacional de Teatro, da programação de teatro saltaram grupos de vanguarda da dança, como Gilles Jobin (Suíça/Reino Unido), Stephen Petronio’s (Estado Unidos) e Wim Vandekeybus (Bélgica). Foram trabalhos que trouxeram outros paradigmas para uma arte que se equilibra na palavra exigência.

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