Marcos Losnak
Especial para a Folha 2
‘‘Chapeuzinho Vermelho’’ é uma história que todo mundo conhece. Uma garotinha atravessa a floresta para levar doces à vovozinha. Desobedece aos conselhos da mãe e encontra o lobo mau. O lobo come a vovó, depois devora chapeuzinho. Mas no final tudo termina bem - um caçador aparece, mata o lobo e retira da sua barriga, sãs e salvas, a velha e a menina.
Ledo engano. A história original, narrada oralmente, era diferente dessa versão que os livros trazem. Na verdade, o lobo mau mastiga a vovó e, antes de devorar Chapeuzinho, oferece-lhe um pedaço de carne e um copo de sangue da vovó. Fim. Não há nenhum bondoso caçador para salvar as duas.
‘‘Cinderela’’ é outra história européia que todos conhecem. A bela jovem que, maltratada pelas irmãs, recebe ajuda de uma fada para realizar seu grande sonho: ir ao baile da corte. Seu sonho se concretiza, mas precisa voltar para casa antes da meia-noite. Na saída perde um dos sapatos.
Ledo engano. A história de ‘‘Cinderela’’ é de origem chinesa. Foi registrada por volta do ano 860 d.C. por um funcionário público que ouviu sua criada narrá-la. Na cultura chinesa havia um verdadeiro fetiche pelos pés femininos de dimensões reduzidas, e o que despertou a paixão do príncipe não foi a beleza da moça, mas as dimensões do pequeno sapato.
Esses são alguns dos dados oferecidos pela pesquisadora inglesa Marina Warner no livro ‘‘Da Fera à Loira’’, lançado recentemente pela Editora Companhia das Letras. A obra é um profundo mergulho no universo dos contos de fadas. O trabalho de Marina Warner não tem como objetivo unicamente interpretar os contos de fadas, tarefa realizada por dezenas de outras obras, mas examinar o contexto original em que eram contados em suas origens, quem os contava e para quem eram contados.
Os dados históricos demonstram que os contos de fadas, nos primórdios, não possuíam nada de infantil. Eram narrativas orais adultas, grande parte violentas e veículo de moralidade. O ponto de partida do estudo de Marina Warner são as transformações dessas histórias orais em narrativas escritas - que teve início com o escritor francês Charles Perrault (1628-1703) e posteriormente pelos alemães Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), os irmãos Grimm.
A principal tese da pesquisadora é que os contos de fadas, em suas origens, foram criados por mulheres não por homens. Na maioria dos povoados havia um mulher, geralmente mais velha, que narrava histórias às outras, histórias que eram transmitidas de geração em geração. Essas narradoras eram consideradas a fofoqueira do lugar, tinham assunto para tudo na cozinha. Com o passar do tempo, a imagem de fofoqueira foi superada e essas mulheres passaram a figurar como depositárias de informação. Assim, foram consideradas conselheiras - as sábias do povoado em assuntos femininos.
Nem Perrault, nem os irmãos Grimm, criaram seus famosos contos de fadas. Após ouvirem as histórias de anônimas mulheres que seguiam a tradição da narrativa oral, os escritores construíram suas próprias versões. Para Marina Warner, um dado que reforça essa idéia é a constante presença da disputa feminina dentro dos contos de fadas.
A rainha de ‘‘Branca de Neve’’ por exemplo, tenta matar Branca de Neve pelo fato dela ser mais bela. Em outro exemplo, as irmãs de Cinderela fazem de tudo para anular a jovem e ganharem evidência. Num tom quase feminista, a pesquisadora afirma que ‘‘embora os escritores do sexo masculino tenham dominado a produção e a disseminação de contos maravilhosos populares, estes eram frequentemente transmitidos por mulheres no ambiente íntimo ou doméstico’’.
Os contos, de abordagem adulta, com violência explícita, quando passaram a ser tratados como ‘‘contos infantis’’, impulsionados pela versões impressas, tiveram seus enredos suavizados. Em ‘‘Da Fera à Loira - Sobre Contos de Fadas e Seus Narradores’’ a autora reconstitui a trajetória de um polêmico conto que foi excluído de várias edições da obra de Charles Perrault, por tratar de um tema nada infantil: o incesto.
‘‘Pele de Asno’’ conta a história de um nobre que, após a prematura morte da esposa resolve cumprir o último desejo da mulher: que ele não permanecesse solitário, que se casasse com uma mulher mais bela que ela. O nobre procura em todos os lugares uma mulher mais linda que a esposa e não encontra. Isso até perceber que a única que se enquadra em tal categoria é a própria filha. Então, propõe-lhe casamento.
A jovem enfrenta vários desafios na tentativa de não se tornar esposa do próprio pai. Outro conto registrado por Perrault que foi suavizado com o tempo é ‘‘Barba Azul’’ - que narra a história do homem rico que cortava suas mulheres em pedaços e guardava seus corpos mutilados num dos quartos da casa.
• ‘‘Da Fera à Loira - Sobre contos de fadas e seus narradores’’ de Marina Warner, Editora Companhia das Letras, tradução de Thelma Médici Nóbrega, 538 páginas, R$ 39,00.A pesquisadora Marina Warner, no livro ‘‘Da Fera à Loira’’, investiga as origens dos contos de fadas.
ReproduçãoNo livro, Marina Warner informa, entre outros fatos curiosíssimos, que no princípio os contos de fadas não tinham nada de infantil

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